YURI CORTEZ/AFP PHOTO
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Mexicanos escrevem um novo obituário do resistente PRI

O partido não apenas deve perder cerca de 70% das cadeiras do Congresso e possivelmente dois governos estaduais

Michel Lettieri / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 05h00
Atualizado 02 Julho 2018 | 17h11

Um resultado previsível da eleição mexicana é o colapso do Partido Revolucionário Institucional (PRI), do candidato governista José Antonio Meade. O PRI foi o partido oficial dos governos autoritários do México do século 20. Mesmo tendo perdido a presidência em 2000, manteve uma influência significativa, retomando o Legislativo e o Executivo em 2012. Controla ainda hoje 57% das prefeituras mexicanas.

Essas eleições podem significar o fim do PRI como hoje o conhecemos. O partido não apenas deve perder cerca de 70% das cadeiras do Congresso e possivelmente dois governos estaduais. 

Outros obituários do PRI já foram escritos. As retumbantes derrotas sofridas em 2000 e 2006 pareciam prenunciar seu fim, mas o PRI resistiu e se recompôs. Desta vez, porém, promete ser diferente. 

O governo do presidente Enrique Peña Nieto é um desastre no qual gritantes escândalos de corrupção se somam a uma violência desenfreada. O que está no centro do colapso do partido é o declínio do chamado “voto duro” – o voto imposto pelos mecanismos partidários.

A base de sustentação do PRI são os sindicatos, organizações de bairro, grupos camponeses e funcionalismo público. A campanha de Meade foi desorganizada e ineficaz. O persistente vazio de seus comícios, no entanto, deveu-se menos à falta de carisma do que à deterioração da máquina partidária. E o que aconteceu com essa máquina? 

Três fatores contribuíram no longo prazo para seu enfraquecimento. Primeiro, a reforma da política social empreendida pelo governo desde os anos 90 tornou mais difícil para os operadores do PRI usarem os programas contra a pobreza para angariar votos.

Segundo, uma agressiva campanha anticorrupção deflagrada pela sociedade civil também enfraqueceu as tentativas de compra de voto. Cidadãos passaram a denunciar rotineiramente práticas eleitorais nefastas, entre outras coisas, postando fotos de “vales-presente” recebidos de candidatos. 

Terceiro, desde que a agência eleitoral nacional foi desatrelada do governo, em 1996, os eleitores passaram a confiar mais na lisura das eleições. Chefes locais do PRI não puderam mais garantir que suas investidas na compra de voto confirmassem na cabine de votação os resultados esperados. 

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Além disso, escândalos no governo mancharam ainda mais a grife do partido, levando a deserções e perda de controle local. No Estado de Veracruz, em 2012 o governador do PRI teve de fugir para evitar um processo por desfalque. Nas eleições seguintes, a coalizão partidária liderada pelo PRI ficou só com 39 das 93 prefeituras que controlava no Estado.

Na medida em que a sobrevivência do PRI depende de sua influência local, o colapso da máquina regional é por si só uma crise. 

Assim, as eleições de 2018 assinalam um momento de transição de um sistema partidário relativamente estável para outro mais fluido e fragmentado. Ainda não está claro se isso será bom ou mau para a democracia mexicana.

A disputa por redes clientelistas pode, no curto prazo, aumentar os incentivos para a corrupção local. Além do mais, se o fracionamento partidário levar a uma estagnação do Legislativo, os mexicanos poderão ficar ainda mais insatisfeitos com o sistema político – num país em que o apoio à democracia vem enfraquecendo. Desse modo, a morte do PRI pode sinalizar um futuro decididamente incerto. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É PESQUISADOR NO CONSELHO DE ASSUNTOS HEMISFÉRICOS

 

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