Mexicanos vão às urnas no domingo após campanha tumultuada

Se as eleições que escolherão o novo presidente mexicano tivessem sido realizadas entre 2004 e o início deste ano, o candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD), Andrés Manuel López Obrador, teria ganhado sem grandes dificuldades. Com um discurso esquerdista inflamado e exercendo uma forte oposição ao atual governo federal liderado por Vicente Fox, o ex-prefeito da Cidade do México liderou todas as pesquisas de opinião realizadas nos últimos dois anos, apoiado em grande parte pela população pobre do país. Com a aproximação do pleito do dia 2 de julho, no entanto, esse quadro foi sendo gradualmente revertido. Diante da possibilidade de ver o seu partido sofrer uma derrota esmagadora, o presidente Fox colocou de lado suas desavenças com o candidato situacionista do Partido Ação Nacional (PAN), Felipe Calderón, e partiu para a ofensiva. Isso porque, até então, o presidente não escondia sua decepção com a vitória de Calderón nas primárias do PAN.Diferenças postas de lado, Fox entrou de cabeça na campanha, tornando-se o principal "adversário" de López Obrador. Além de usar feitos de seu governo como a estabilidade econômica e o controle da inflação para favorecer Calderón, o presidente mexicano não poupou suas aparições na mídia para cerrar fogo contra Fox.O que se viu a partir daí foi uma campanha marcada por acusações mútuas, que resultou em uma surpreendente virada no quadro eleitoral.Os primeiros ataques foram lançados pelo partido situacionista, que se centrou em desqualificar López Obrador como "um perigo para o México", comparando-o ao presidente venezuelano Hugo Chávez. Segundo as peças de propaganda do PAN, o candidato esquerdista seria "intolerante" e populista como Chávez.Além das comparações com Chávez, um outro fator que prejudicou López Obrador foi a oposição da esquerda zapatista à sua candidatura. Aproveitando o clima pré-eleitoral para chamar a atenção para suas reivindicações, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) realizou uma série de mobilizações em todo o país - apelidada de "outra campanha" - em que criticou todos os candidatos, em particular López Obrador.A estratégia do PAN e o clima desfavorável funcionaram para reverter o quadro, e entre abril e os primeiros dias de maio Calderón passou López Obrador.A resposta do candidato da esquerda veio em menos de três semanas - e no mesmo baixo nível -, com acusações de que Calderón teria beneficiado um de seus cunhados ao ajudá-lo a conseguir contratos com o governo quando foi secretário de Energia do governo (2003-2004). A campanha de Obrador usou ainda um polêmico resgate bancário de Calderón após a crise econômica de 1994-95 para classificá-lo como um homem com as "mãos sujas" e "mentiroso". Com a investida, López Obrador recuperou terreno pouco a pouco, e em algumas das últimas pesquisas aparece na frente de seu adversário, embora em empate virtual devido à margem de erro.Correndo por fora, o candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI) - partido que durante todo o século 20 dominou a política no mexicana -, Roberto Madrazo, aparece em terceiro, praticamente sem chances de vencer.Pleito indefinidoEm entrevista à agência EFE no último dia 23, representantes de sete empresas de pesquisa do México afirmaram ser difícil saber quem tem mais possibilidade de vencer as eleições presidenciais de 2 de julho, que será decidida em apenas um turno.Para o diretor-geral da Arcop, Rafael Gimenez, "a eleição está absolutamente no ar", já que das últimas treze pesquisas divulgadas, sete dão vantagem a López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), cinco a Calderón, do governista Partido de Ação Nacional (PAN), e uma estabelece um empate.Gimenez destaca que "doze das treze pesquisas apresentaram resultados com uma diferença entre o primeiro e o segundo candidato menor do que a margem de erro", o que implica em um empate técnico na maioria das pesquisas.Ainda assim, uma média dos treze levantamentos concede vitória a López Obrador, com 34,7% dos votos, seguido de Calderón, com 34,2%.Em terceiro lugar, aparece o candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Roberto Madrazo (26%), seguido por Patricia Mercado e Roberto Campa, que se candidataram por partidos recém-criados.Para o diretor da BGC Ulises Beltrán e Associados, Ulises Beltrán, a corrida eleitoral foi dominado por três períodos ao longo de 2006: de janeiro a abril, López Obrador tinha a eleição garantida; de 25 de abril a 31 de maio, Calderón se recuperou e superou o esquerdista; e de 6 junho até agora, as intenções de voto se nivelaram.Democracia em risco?Embora esta seja a segunda eleição efetivamente livre a ser realizada no México após cerca de 80 anos de dominação hegemônica do PRI, dois dos intelectuais mexicanos mais respeitados, em entrevistas recentes ao editor de Internacional do Estado, Eduardo Salgado, vêem risco de que o resultado do pleito possa abalar a frágil ordem democrática do país.Para o historiador Enrique Krauze, as eleições de domingo são as mais importantes em quase cem anos, e o perigo não é mais o PRI, mas sim López Obrador. Isso porque, segundo Krauze, certas características populistas no discurso de López Obrador apontam para a possibilidade de que o seu partido, uma dissidência do PRI, possa vir a "reconstituir o velho sistema político mexicano" caso vença o pleito. "Com uma agravante", explica Krauze, "o antigo sistema tinha limites temporais, e a lealdade não era à pessoa do presidente, mas à instituição presidencial. Com López Obrador a lealdade seria à pessoa dele - como em todo regime populista - e, por este motivo, creio que poderia ter a tentação de prolongar o mandato além dos seis anos".Com controle quase integral em nível federal, regional e local, o PRI elegeu todos os presidentes mexicanos entre o final da década de 1920 e a eleição de Fox, em 2000. Para manter-se no controle do país, o partido constitui-se como "Partido Oficial", suprimindo todas as tentativas das outras forças políticas para removê-lo do poder. Já para Héctor Aguilar Camín, outro historiador mexicano, o risco poderia vir em uma situação diametralmente oposta, com uma eventual derrota de López Obrador. Para ele, o maior receio é que o candidato tente impugnar o pleito, caso não aceite o resultado. "O perigo é que López Obrador perca e, aliado ao PRI, não aceite o resultado. Os dois partidos têm seguidores suficientes para impugnar a eleição violentamente, com bloqueios de estradas, manifestações e ocupação de instalações públicas", disse.

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