Imagem Moisés Naím
Colunista
Moisés Naím
Conteúdo Exclusivo para Assinante

México bom e México mau

Há mais de 20 anos, um jovem presidente mexicano surpreende o mundo, mas sobretudo o seu país. Propõe reformas sem precedentes que entram em choque com a ideologia e os poderosos grupos de interesses no seio do seu próprio partido, o poderoso Partido Revolucionário Institucional (PRI).

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2014 | 02h01

As reformas são aplaudidas por analistas internacionais, que acreditam que se implementadas tornarão o país mais próspero, mais justo e menos corrupto. São um caminho para a modernidade.

Mas no México muitos acolhem a proposta com desconfiança e ceticismo. Alguns duvidam da sinceridade do presidente e acreditam que se trata simplesmente de forma de privilegiar ainda mais os poderosos de sempre. Muitos opinam que as mudanças promovidas pelo presidente terão efeitos devastadores sobre a economia e a sociedade mexicana.

Para a esquerda e os nacionalistas, as reformas econômicas constituem uma entrega ao imperialismo ianque. E muitos empresários são contra mudanças que ameaçam seus lucrativos monopólios.

Há 20 anos, o então presidente Carlos Salinas de Gortari derrotou opositores dentro e fora do seu partido e levou adiante o tratado de livre comércio firmado com Estados Unidos e Canadá, o famoso Nafta, que certamente transformou o México. Embora ainda haja alguns críticos, a realidade é que este tratado tem sido positivo.

O comércio internacional dobrou, o investimento estrangeiro triplicou e, apesar de não ter conseguido sanar os problemas de pobreza, desigualdade e o medíocre crescimento econômico que afligem o México, hoje os que defendem sua eliminação são minoria. Mas talvez o mais importante é que o potencial impacto positivo das reformas que o país desesperadamente necessita foi anulado pelos golpes desferidos pelo lado mau do México.

O México assassino e criminoso, corrupto e aproveitador, injusto e bárbaro, onde reina a impunidade e o império da lei existe somente para aqueles que podem pagar. O tratado firmado com EUA e Canadá entrou em vigor em 1994, ano em que irrompeu uma rebelião armada em Chiapas. Foram assassinados tanto o candidato presidencial do PRI como o secretário-geral do partido, e a economia do país entrou em colapso.

O presidente Salinas, acusado de corrupção, fugiu para o exterior, e o seu irmão Raúl, acusado de assassinato, foi preso. A péssima situação econômica, combinada com os escândalos e a corrupção criou um clima político tóxico em que as reformas políticas que o país necessitava se tornaram impossíveis. Ninguém acreditava em ninguém. E ninguém confiava em ninguém.

Duas décadas depois, a história se repete. Enrique Peña Nieto deixa os mexicanos e o mundo perplexos com as surpreendentes reformas que deseja implementar. Aumenta os impostos (México é o país membro da OCDE que menos arrecada), promove uma lei mais severa para impedir os monopólios, obriga que haja mais concorrência na área da televisão e das telecomunicações e permite a entrada de empresas estrangeiras no setor de petróleo e energia.

Também propõe uma limpeza na Pemex, a ineficiente empresa de petróleo estatal conhecida pela escandalosa corrupção. Agita o sistema educativo, obrigando os professores a se submeterem a avaliações e possivelmente serem despedidos se não atenderem aos requisitos. Algumas dessas reformas já foram implementadas e outras estão em curso. Peña Nieto declarou guerra aos muitos e diversos interesses políticos e econômicos.

Prendeu Elba Ester Gordillo, a intocável líder do sindicato dos professores, acusando-a de malversação e crime organizado, atingiu os interesses, também intocáveis até agora, do homem mais rico do mundo, Carlos Slim, e suas empresas, como também os da Televisa, o enorme conglomerado de mídia que muitos acreditam que controla os atos do presidente.

Em qualquer outro país as pessoas estariam aplaudindo um presidente que tenta fazer tudo isto. Não no México. Os mexicanos não acreditam que seu presidente está fazendo isso pelo bem do país, que as reformas ajudarão a todos.

Fatos recentes confirmam as piores suspeitas. O massacre de Iguala, que sugere uma conspiração do governo local com narcotraficantes, evidências de que a luxuosa mansão particular do casal presidencial foi comprada com uma pouco transparente ajuda de empresas privadas que se beneficiaram de contratos firmados com o governo, a inexplicada anulação de uma licitação de quase US$ 5 bilhões para aquisição de um trem de alta velocidade que o governo concedeu a uma empresa chinesa e empresas mexicanas próximas ao PRI, alimentam uma atmosfera tão tóxica politicamente como a observada durante os piores momentos do governo Salinas.

A criminalidade e a corrupção farão naufragar as reformas que poderiam contribuir para melhorar o país? Poderá o México bom criar os anticorpos que neutralizem o México mau?

Esses são os dados lançados hoje no México. Esperemos que caiam a favor do México bom. Para isso seria de muita ajuda se Peña Nieto aprendesse com a experiência de Salinas. Somente a total intolerância para com a corrupção permitirá que o seu governo seja bem sucedido.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Moisés Naím é ex-diretor executivo do Banco Mundial e membro do Carnegie Endowment for International Peace 

Mais conteúdo sobre:
Moisés NaímMéxico

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.