Marco Ugarte/AP
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México, China e EUA: uma dinâmica em transformação

Relações mais aquecidas entre presidente mexicano e Pequim podem criar um dilema de segurança para os Estados Unidos

Roman Ortiz*, Americas Quarterly

28 de janeiro de 2021 | 04h00

No antigo jogo chinês Go, os jogadores vão colocando peças pretas e brancas num tabuleiro de madeira, competindo para estabelecer um posicionamento estratégico. Se a China e os Estados Unidos recentemente se viram presos numa espécie de partida de Go sobre a influência na América Latina, a China agora está posicionando firmemente uma nova peça: o México. O presidente Andrés Manuel López Obrador, ou AMLO, parece receptivo à ideia de laços mais fortes com os chineses, então seria sábio da parte do presidente Joe Biden e de seu governo pensar no próximo passo.

Um aumento significativo da influência chinesa sobre o México teria fortes implicações para a segurança dos Estados Unidos. Até agora, Washington tem mantido uma “relação especial” com seu vizinho do sul em termos de cooperação de segurança. Embora tenha gozado de autonomia na gestão da ordem pública, o governo mexicano manteve os Estados Unidos como seu principal - e praticamente único - parceiro em questões de segurança interna. O desenvolvimento de um forte relacionamento mexicano-chinês pode mudar essa equação, com Pequim emergindo como uma fonte alternativa de armamento e aconselhamento para ajudar na escalada da guerra às drogas no México.

O México, até agora, foi uma espécie de anexo da influência chinesa sobre a América Latina. O comércio entre a República Popular da China e a região disparou nas últimas duas décadas - de US $ 17 bilhões para US $ 315 bilhões entre 2002 e 2019 - enquanto o investimento chinês atingiu US$ 143,2 bilhões na última década. Mas menos de 2% desse valor foi para o México, e a China recebeu apenas 1,6% das exportações mexicanas em 2019. Laços econômicos limitados significaram relações políticas fracas entre os dois países e, embora os líderes chineses e mexicanos tenham trocado visitas periodicamente, o diálogo diplomático ficou aquém do de outros países latino-americanos.

Mas a era de engajamento atrofiado pode chegar ao fim em breve. Quando o Secretário de Relações Exteriores do México, Marcelo Ebrard, agradeceu a Pequim por seu apoio no enfrentamento à pandemia de covid-19 - apoio que incluiu o fornecimento de 35 milhões de doses da vacina chinesa CanSino nos próximos meses - ele acrescentou que o México “expandirá a parceria estratégica de ambas as nações”. A declaração, precedida pela visita de Ebrard a Pequim em julho de 2019, foi a última de uma série de gestos pró-China feitos pelo governo AMLO.

Até recentemente, dois fatores-chave impediam o México de se envolver mais estreitamente com a China. Em primeiro lugar, a influência política e econômica sem precedentes dos Estados Unidos desde que o Nafta foi assinado, em 1994. Em segundo lugar, o nacionalismo. Legado de uma sangrenta guerra de independência e de uma série de intervenções subsequentes da França e dos Estados Unidos, as elites políticas mexicanas historicamente se opuseram à interferência estrangeira. Embora os Estados Unidos e o México tenham desenvolvido uma parceria incômoda como resultado do intenso intercâmbio humano, cultural e econômico entre os dois países, as relações com a distante China permaneceram estranhas. Até agora, as autoridades mexicanas tinham preferido o mal conhecido ao desconhecido.

Essas barreiras ao engajamento começaram a diminuir. Depois de anos de atrito comercial e político entre o México e o governo de Donald Trump, a presidência de Joe Biden pode, ao invés de proporcionar uma melhoria automática nas relações bilaterais, trazer novas tensões.

Na área de segurança, o conflito é quase certo. AMLO provavelmente ficará relutante em aceitar críticas à sua forma de lidar com a luta contra o crime organizado e a corrupção, especialmente porque o governo Trump concordou em retirar uma série de acusações de lavagem de dinheiro contra o ex-secretário-geral de Defesa mexicano, Salvador Cienfuegos. O general foi autorizado a deixar os Estados Unidos em troca de uma mera promessa de que as autoridades mexicanas continuariam as investigações - promessa quebrada 58 dias depois, quando o México decidiu não abrir processo. Em outra demonstração do credo nacionalista de AMLO, o Congresso mexicano também aprovou recentemente uma lei que restringe o trabalho dos agentes da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) em solo mexicano, desferindo um sério golpe à cooperação de segurança no momento em que os cartéis de drogas expandem sua influência.

Ciente da oportunidade iminente, a China logo interveio com demonstrações visíveis de apoio. Além de enviar equipamentos médicos e vacinas durante a pandemia, também se envolveu em alguns dos projetos mais emblemáticos de AMLO sob a égide de sua campanha contra a pobreza e a corrupção, a “Quarta Transformação” (4T). Um consórcio liderado pela China Communications Construction Company (CCCC) e a empresa portuguesa Mota-Engil ganhou o contrato para construir o primeiro trecho do Trem Maia (Tren Maya), garantindo uma posição fundamental na estratégia de AMLO para impulsionar o desenvolvimento econômico no sul do México. Estreitamente ligados à imagem pública do presidente, os lucros desse projeto administrado pelo Exército também serão usados para financiar o sistema de aposentadoria militar, tornando-o ainda mais importante em termos políticos.

Os investimentos chineses também se fizeram particularmente relevantes no setor de petróleo. Em 2014, a China fechou um acordo para criar o Fundo de Energia SINOMEX, com a participação da estatal mexicana PEMEX, da Corporação Nacional de Petróleo da China, do Banco de Desenvolvimento da China e do Banco Industrial e Comercial da China. Esse mecanismo forneceu um empréstimo de US $ 600 milhões para financiar a construção da refinaria Dos Bocas, um projeto considerado financeiramente inviável pela maioria dos especialistas, mas fundamental para a tentativa de AMLO de reduzir as importações de produtos petrolíferos refinados e afirmar a independência energética mexicana. Mais uma vez, as autoridades chinesas colocaram a política acima da lucratividade, apoiando uma iniciativa economicamente duvidosa para ganhar a simpatia de seus parceiros mexicanos.

Embora tenha sido o ex-presidente Enrique Peña Nieto quem relançou a relação bilateral entre o México e a China, dando-lhe o status de “parceria estratégica” durante uma visita de Xi Jinping em 2013, AMLO talvez tenha uma visão mais ideológica. A China pode se tornar um aliado fundamental para a transformação de seu país seguindo as ideias nacionalistas e estatistas da Revolução Mexicana, as quais foram inicialmente incorporadas ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), a força política dominante no país até o início dos anos 2000. AMLO se apresentou como o herói popular pela recuperação desse legado que, em sua opinião, foi traído por presidentes mexicanos que implementaram reformas voltadas para o mercado e desenvolveram uma estreita cooperação com Washington. Seu projeto político - que defende políticas de auxílio social aos setores populares, dá ao estado um papel central no desenvolvimento econômico e rejeita a influência americana - poderá contar com a simpatia de Pequim.

Embora as relações entre os Estados Unidos e o México possam não se alterar dramaticamente no curto prazo, o primeiro deve esperar que a China expanda sua presença em setores-chave da economia mexicana, bem como fortaleça a cooperação política no futuro. Se a estratégia de aproximação de AMLO colher frutos, poderá encorajar os setores antiamericanos do governo mexicano, criando uma fonte adicional de atrito com Washington. Enquanto as autoridades de Biden começam a definir as prioridades da política externa para a América Latina, devem ter cuidado para não pensarem que o México estará perpetuamente imune à influência chinesa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

* É vice-presidente do Cordillera Applications Group, empresa especializada em consultoria e análise de riscos políticos e de segurança. Anteriormente, trabalhou como consultor para USAID e CNA Corporation. Entre 2010 e 2014, foi assessor do ministro da Defesa da Colômbia.

 

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