México comemora Independência dividido

O México lembrou o dia de sua Independência emcalma. Mas imerso na cisão interna, evidenciada nos dois atos oficiais paralelos realizados, conseqüência da crise política que se seguiu à eleição geral de 2 de julho. O presidente Vicente Fox lançou às 23 horas de sexta-feira (1 hora de sábado, em Brasília) o tradicional Grito patriótico na cidade deDolores Hidalgo, berço do movimento de independência, no Estado de Guanajuato. Sob uma intensa chuva, em meio a fortes medidas de segurança e cercado por seus ministros, Fox comandou a festa nacional numa cidade que é um dos redutos do conservador Partido Ação Nacional(PAN). No ritual do Grito, um dos mais importantes para os mexicanos, as autoridades federais, estaduais e municipais lançam "vivas" aos heróis da Independência e ao México. Depois, tocam um sino que é uma réplica do usado pelo padre Miguel Hidalgo para convocar a população à insurreição contra os espanhóis. Além das frases tradicionais da cerimônia, Fox gritou "Viva nossa democracia, viva nossas instituições, viva a unidade dos mexicanos", numa nítida alusão à conjuntura vivida pelo país. Fox é acusado pela esquerda mexicana de, ao lado dos empresários e do tribunal eleitoral, fraudar as eleições em que o candidato do PAN, Felipe Calderón, venceu o do Partido da RevoluçãoDemocrática (PRD), Andrés Manuel López Obrador. A vantagem obtida por Calderón foi a menor na história das votações gerais no país: 233.381 dos 41 milhões de votos, o equivalente a 0,56%. Para reivindicar uma nova apuração de votos, López Obrador liderou durante um mês e meio uma vigília permanente no Zócalo, praça principal da Cidade do México, e outros pontos-chave da capital. Nas últimas horas, ele suspendeu o protesto para permitir a tradicional parada das Forças Armadas. Depois, seus simpatizantes se reunirão como fazem diariamente há semanas para participar de umaassembléia popular. Governo alternativo Na concentração deste sábado, denominada ConvençãoNacional Democrática, López Obrador pretende anunciar a criação de um governo civil alternativo ao oficial, a partir de 1º de dezembro, quando Calderón tomará posse. De forma quase simultânea ao ato de Guanajuato, o prefeito da Cidade do México, Alejandro Encinas, do PRD de López Obrador, comandou outra cerimônia significativa, no Zócalo. A praça era o cenário inicialmente escolhido por Fox para o Grito. Mas ele mudou de idéia na véspera, para evitar confrontos com manifestantes esquerdistas. Horas antes da festa nacional, o porta-voz da Presidência, Rubén Aguilar, justificou a decisão de Fox de deslocar-se a Dolores Hidalgo, a 273 quilômetros da capital. Ele alegou um suposto plano de radicais da esquerda para "incitar a violência, inclusive mortes". A denúncia foi chamada de "provocação" pelo presidente do PRD, Leonel Cota, que acusou Aguilar de tentar "desacreditar" o movimento de resistência civil da esquerda. Em seguida, lembrou que a vigília da esquerda na Cidade do México não causou nenhum dano às instalações urbanas. Apesar da nítida crise política no país, as expectativas mais pessimistas de confrontos de rua desapareceram quando Fox decidiu mudar a sede do ato. O único incidente do dia aconteceu no centro da Cidade do México. Delinqüentes trocaram tiros com a polícia e um gente foi ferido, num fato isolado e sem relação com a conjuntura política.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.