Washington Post photo by Kevin Sieff.
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México detém centenas de crianças sozinhas antes de chegarem à fronteira com os Estados Unidos

Joe Biden prometeu responder com mais humanidade ao crescente número de crianças chegando à fronteira, mas autoridades mexicanas continuam a agir como um braço do policiamento das autoridades de imigração, como ocorreu no governo Trump

Kevin Sieff, The Washington Post

15 de março de 2021 | 08h00

REYNOSA, MÉXICO - Nicole, 15 anos, e Joshua, 13, cresceram com a foto da sua mãe na sala de estar e a promessa de que um dia eles a veriam de novo.

A mãe deixou El Salvador e foi para Maryland, nos Estados Unidos, quando eles ainda eram pequenos, sem saber quanto tempo ela ficaria lá, mas sabiam que ela tinha de partir se quisesse tirar a família da pobreza. Doze anos depois, ela havia economizado dinheiro suficiente para pagar os contrabandistas – mais de US$ 10 mil – para que seus filhos chegassem ao país.

Em 14 de dezembro, a alguns metros ao sul da fronteira, na ponte internacional onde o contrabandista deixou as crianças, a polícia mexicana parou os dois irmãos.

"Eu implorei a eles, pedi por favor para nos deixarem passar", disse Nicole em lágrimas. "Mas não, eles nos trouxeram aqui".

Até então, Nicola e Joshua, que deram somente seu nome, consideravam sua jornada um êxodo, não parte de um fluxo de pessoas, ou uma crise. Agora estão entre as mais de 700 crianças levadas para o Centro de Atenção para Menores na Fronteira (Center for Attention to Border Minors), em Reynosa, ao sul de McAllen, no Texas, desde dezembro. Quase todas as crianças foram detidas por soldados mexicanos ou pela polícia antes de conseguirem se apresentar aos agentes da imigração americanos.

Se de um lado, o presidente Joe Biden prometeu responder com mais humanidade ao crescente número de crianças chegando à fronteira americana, com ou sem adultos acompanhando-as, de outro as autoridades mexicanas continuam a agir como um braço do policiamento das autoridades de imigração dos Estados Unidos, como ocorreu durante o governo do presidente Donald Trump. Até onde essa parceria deve continuar é uma das muitas perguntas que o presidente Biden tem de responder à medida que mais crianças vêm chegando à fronteira.

O governo Biden pediu para aqueles que pretendem entrar no país como imigrantes aguardarem em seu país de origem, dizendo que ainda não está pronto para recebê-los na fronteira. Mas não foi especificado quanto tempo essa espera vai durar ou o que vai suceder com aqueles que, como Nicola e Joshua, empreenderam sua viagem antes de ele assumir a presidência.

Algumas crianças estão no minúsculo complexo no centro de uma cidade fronteiriça agitada há mais de um ano. Outras chegaram há poucos dias. Várias têm cicatrizes de espancamentos ou tortura nas mãos de gangues e cartéis. Elas dormem juntas num dormitório com janelas com grades, a porta guardada por um segurança desarmado que vai à caça das que tentam fugir.

"Elas ficam desesperadas esperando por tanto tempo aqui, presas", disse Gabriela Zuñega Soberon, diretora do abrigo administrado pelo governo. "Em muitos casos vemos as mesmas crianças repetidas vezes. Elas são pegas e deportadas e depois detidas novamente".

Quando chegaram a esse centro, Nicole e Joshua encontraram crianças fugindo de uma série de crises que atingem a América Central: violência de gangues, pessoas desalojadas depois de dois grandes furacões, da pobreza que piorou por causa da pandemia. A cada dia ou dois mais crianças chegam.

Leslie, 13 anos, foi detida pela polícia mexicana na fronteira algumas semanas depois de fugir de El Salvador onde, disse ela, membros de gangues tentaram abusá-la. Luís, 16 anos, vindo de Honduras, foi preso num posto de fronteira na semana passada numa rodovia ao sul da cidade.

Mauricio, 17 anos, e seu irmão Carlos, 15, estavam entre os poucos que conseguiram chegar à fronteira, mas foram imediatamente expulsos pelos agentes americanos, uma vez que a lei americana assim permite porque eles são de nacionalidade mexicana.

Agora os meninos discutem se é melhor voltar para casa e depois tentar novamente entrar nos Estados Unidos, pedir asilo no México ou procurar um advogado que os ajude a atravessar a fronteira para o Texas. Suas histórias oferecem um quadro mais amplo das razões pelas quais milhares como eles chegaram à fronteira dos Estados Unidos até agora neste ano.

Luís, do departamento de Copán, a noroeste de Honduras, planejava o que diria ao agente da patrulha de fronteira. “Eles mataram um dos meus tios, depois outro e outro agora serei o próximo. Sei que estão me procurando”.

Mas a polícia mexicana entrou no ônibus onde ele estava quando o veículo entrou em Reynosa. Pediram documentos, que ele não tinha. O garoto está agora num centro de acolhimento, esperando para ser deportado. Quando sua família pagou um contrabandista para levá-lo até a fronteira, o dinheiro pago cobria três chances de ele atravessar. Agora ele tem duas.

Se Luís conseguir entrar nos Estados Unidos, ele provavelmente será entregue a seu tio que vive em Nova York e poderá pedir asilo ou alguma outra forma de proteção. Nicole e Joshua sabem que o caminho está aberto para eles também. Eles deixaram El Salvador em dezembro sem saber que um novo presidente assumiria o posto em Washington, mas esperançosos de encontrar sua mãe.

Casos como estes – de crianças viajando para os Estados Unidos para se reunirem com um parente – são os mais comuns no abrigo, disse Soberon. As crianças têm permissão para telefonar para os parentes nos Estados Unidos às segundas e sextas-feiras. Elas têm aulas de espanhol e matemática numa sala com as paredes pintadas com palavras clichês como paz, responsabilidade e lealdade.

No caso das que conseguem atravessar a fronteira para os Estados Unidos, advogados têm pressionado o governo para liberá-las para os parentes o mais rápido possível. Com o forte aumento de crianças chegando, agora elas esperam 108 horas em média em custódia da patrulha de fronteira antes de serem transferidas para abrigos administrados pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos onde permanecem mais alguns dias antes de serem entregues para seus familiares.

As crianças de nacionalidade centro-americana que estão no centro de Reynosa  passam em média um mês à espera de documentação e a intervenção dos seus consulados. As que buscam proteção no México enfrentam procedimentos burocráticos intermináveis.

Nicole e Joshua esperavam há quase quatro meses. Leslie, 13 meses. Ela deixou o complexo somente uma vez para preencher documentos num departamento do governo.

“Você se sente aprisionado”, disse ela em lágrimas. “E fica pensando, quando isto vai acabar?”.

O México aumentou suas apreensões de imigrantes com destino aos Estados Unidos em resposta às ameaças do governo Trump de impor tarifas em 2019, mas a vigilância continua. O país defende essas operações, afirmando estar também implementando suas próprias leis de imigração, mesmo quando detém crianças em busca de asilo a poucos metros da fronteira com os Estados Unidos.

Este mês o governo Biden anunciou que pretende restabelecer o programa chamado Central American Minors, cujo objetivo é reunir crianças de El Salvador, Guatemala e Honduras com parentes que residem legalmente nos Estados Unidos, eliminando a necessidade de viagens perigosas na direção do norte. Mas muitas crianças agora a caminho dos Estados Unidos pretendem se reunir com pais e parentes que são imigrantes ilegais.

A poucos quilômetros do centro de assistência às crianças, do lado mexicano da ponte internacional que liga McAllen e Reynosa, dezenas de crianças de Honduras, Guatemala e El Salvador dormiam no chão.

As autoridades americanas as enviaram de volta para Reynosa depois de terem atravessado a fronteira e, como estavam com seus pais, as autoridades mexicanas não as acolheram no abrigo. Em vez disso, as famílias foram colocadas numa área patrulhada por grupos do crime organizado.

“Estamos dormindo ao relento há três noites”, Edwin, de Alta Verapaz, Guatemala, sentada com seu irmão de oito anos.

Eles foram expulsos dos Estados Unidos com base em medida baixada pelo governo Trump – e mantida por Biden - fechando a fronteira para requerentes de asilo durante a pandemia. Mas tinham ouvido falar que crianças desacompanhadas e famílias com bebês estavam autorizadas a entrar nos Estados Unidos.

Mas para eles, como para as crianças detidas no centro, não mudou muita coisa com o novo presidente americano./ TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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