México deve atrapalhar agenda de novo secretário dos EUA para região

Tendência de Arturo Valenzuela, no entanto, é a de manter a política de aproximação diplomática com Brasil

Patrícia Campos Mello, Lisandra Paraguassú e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

A escolha do chileno-americano Arturo Valenzuela para o principal cargo diplomático do governo de Barack Obama para América Latina deve trazer continuidade na política de aproximação dos Estados Unidos com o Brasil. Valenzuela foi indicado anteontem como secretário-assistente para o Hemisfério Ocidental no lugar de Thomas Shannon, que vinha ocupando o posto desde o governo de George W. Bush. Mas analistas e fontes do governo temem que o México - que trava uma guerra contra o narcotráfico na fronteira americana - possa atropelar a agenda dos EUA para a região.Em entrevista ao Estado no fim do ano passado, Valenzuela - acadêmico, diretor do centro de estudos latino-americanos da Universidade Georgetown, em Washington, e assistente especial do governo Bill Clinton - defendeu um maior compromisso dos EUA na região. "Precisamos ter uma cooperação na mesma altura, principalmente em setores como energia e infraestrutura", disse, reconhecendo que o presidente Bush concentrou boa parte de seu mandato na guerra contra o terrorismo.Valenzuela deixou claro que não via com bons olhos os chamados "governos populistas" da região. "Mudanças na Constituição para permitir reeleição são um grande erro, inclusive no caso da Colômbia. É um erro os presidentes voltarem, seja pessoalmente ou por meio de suas esposas. Os líderes precisam deixar o poder e dar espaço a novos líderes. Isso também se aplica a Ricardo Lagos, no Chile, e Lula, no Brasil", disse.Segundo ele, a estratégia do presidente Obama de se aproximar de nações adversárias precisa ter limites. "Tudo também depende da Venezuela", afirmou. "Não quer dizer que, se a Venezuela continuar com sua suposição de que os EUA são um país imperialista e sua posição agressiva, Obama vai conversar com Hugo Chávez", acrescentou.CONTINUIDADEPara Michael Shifter, vice-presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano, Valenzuela deverá dar "uma grande continuidade" na política de Shannon de reconhecer a importância regional do Brasil - até porque Valenzuela foi o chefe de Shannon no Conselho de Segurança Nacional do governo Clinton. Shannon é bem-visto pelo governo brasileiro e tem bom trânsito entre republicanos e democratas. Mas, entre diplomatas brasileiros, há receio de que Valenzuela siga a chamada "escola clintoniana", que encarava o Brasil apenas como um grande país latino-americano, e não como potência global. "Não sabemos se ele vai reconhecer o Brasil como foco de estabilidade na região, como o país que Washington deve procurar quando se trata de facilitar as conversas com Cuba e melhorar a relação com Venezuela e Bolívia", diz uma fonte. "Na era Clinton, quando Valenzuela atuou, o Brasil ainda estava tentando sair da crise e era visto apenas como mais um parceiro."Outro perigo é que o México atropele a política americana para a América Latina, por causa dos problemas de tráfico de drogas, crise econômica e imigração. "Como Shannon, Valenzuela entende o papel crítico do Brasil no hemisfério e em assuntos globais", diz Shifter. "Mas o risco é que o México se torne uma preocupação tão grande que consuma toda a atenção de Valenzuela". Riordan Roett, diretor do programa de Hemisfério Ocidental da Johns Hopkins University, também acha que o México será o foco do governo Obama. Mas ele acredita que, de forma geral, Valenzuela terá mais autonomia do que seu antecessor. "Shannon foi um excelente secretário, mas ele é um diplomata de carreira em um governo muito conservador", disse. "Valenzuela é mais ?político? e terá mais liberdade no cargo." Ou, como disse o embaixador do Brasil em Washington, Antonio Patriota: "Valenzuela é um intelectual respeitado que vem com carimbo de aprovação da secretária de Estado, Hillary Clinton", por ser muito próximo do ex-presidente Clinton. REAÇÕESA nomeação de Valenzuela não foi avaliada oficialmente pelo governo brasileiro, mas é vista com simpatia. Oficialmente, o Itamaraty informa que não se manifesta sobre nomeações feitas por outros países, mesmo que, como nesse caso, seja um tema relevante para o País. Thomas Shannon, que ocupava o cargo para o qual Valenzuela foi nomeado, pode vir a ser o novo embaixador americano no Brasil no lugar de Clifford Sobel. A provável nomeação, por enquanto, não passa de boato. No entanto, no Ministério das Relações Exteriores o tema já está sendo discutido, apesar de o governo brasileiro não ter recebido nenhuma informação oficial. Ontem, no entanto, o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, disse que há boa expectativa sobre a atuação de Valenzuela e "imagina" que ela seja boa para o Brasil "porque, como acadêmico, tem conhecimento da região". Segundo Garcia, "tivemos excelentes relações com Shannon e certamente teremos com Valenzuela".Garcia está otimista: "O fato de Valenzuela ser filho de chilenos indica uma aproximação com a América do Sul, o que facilitará o entrosamento."

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