Eduardo Verdugo/AP
Eduardo Verdugo/AP

México e Brasil já estão em pé de igualdade

Mexicanos apostaram em livre comércio e sul-americanos apelaram para intervenção do governo

Simon Romero, The New York Times,

20 de junho de 2012 | 03h08

BRASÍLIA - Nos últimos anos, os mexicanos olhavam com inveja enquanto o Brasil era considerado como o país de melhor desempenho entre as nações da América Latina. Com uma economia em expansão e um lugar de destaque no cenário mundial, o Brasil estaria prestes a se tornar um país de primeira grandeza, enquanto o México continuava atolado na criminalidade e na pobreza. Mas assim como a sorte pode mudar de repente num jogo da Copa do Mundo ou nas Olimpíadas - eventos que o Brasil hospedará nos próximos quatro anos - o mesmo pode acontecer com a dinâmica entre as nações.

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No ano passado, a economia do Brasil cresceu mais do que a do México e aparentemente voltará a superar a do seu grande rival latino em 2012. A desaceleração do Brasil pode ser atribuída em parte ao excessivo endividamento dos consumidores e à queda da produção industrial, relacionada à recente valorização da moeda brasileira. Além disso, o declínio do crescimento global, particularmente na China, provocou a redução dos preços das commodities que o Brasil exporta.

Ao mesmo tempo, as fábricas mexicanas estão exportando quantidades recorde de televisores, automóveis, computadores e eletrodomésticos, que passaram a substituir algumas importações chinesas nos EUA, alimentando uma modesta expansão. Em termos econômicos, a situação no México não parece um lugar tão sombrio como antes. "A maneira mais certa de melhorar a imagem de um país é o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)", diz Luis de la Calle, ex-negociador do comércio mexicano e analista político ouvido na Cidade do México.

O fortalecimento da economia mexicana ressalta o brilho exibido nesses dias, enquanto o presidente Felipe Calderón hospeda o grupo dos 20 líderes dos principais países industrializados e emergentes no luxuoso balneário de Los Cabos. Contrastando com a crise cada vez mais profunda na zona do euro, o México poderá destacar 17 anos de estabilidade macroeconômica, inflação baixa, dívida administrável, uma economia aberta e crescente competitividade. O PIB teve uma expansão de 3,9% no ano passado, enquanto o do Brasil cresceu 2,7%.

Além disso, há sinais encorajadores para o futuro. Nissan, Mazda e Honda anunciaram a construção de novas fábricas no México, e estão previstos também investimentos nos setores aeroespacial e eletrônico. "Os astros aparentemente estão se alinhando para favorecer um desempenho econômico maior" do México, concluiu um relatório da Nomura Securities divulgado em maio. "O que ocorre é uma lenta porém persistente troca da guarda".

A inversão das fortunas nas duas maiores economias da América Latina contrapõe-se significativamente à euforia gerada pelas perspectivas do Brasil ainda em 2010, quando a economia cresceu 7,5% no último ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "O período do bom crescimento pertence claramente ao passado", diz o alemão Antony Mueller, professor de Economia da Universidade Federal do Sergipe.

Num sinal de desconforto, o governo brasileiro ameaçou este ano cancelar o acordo automotivo assinado há dez anos com o México. Durante a maior parte da vigência do trato, o Brasil enviou mais carros para o México, mas no ano passado a situação se inverteu, com um aumento de 70% das importações de carros fabricados no México, para um total de US$ 2,4 bilhões. Em março, o México concordou em reduzir suas exportações para o Brasil a uma média de US$ 1,55 bilhão anual nos próximos três anos, para, depois disso, restabelecer o livre comércio.

A disputa enfatiza a estratégia de desenvolvimento adotada em cada país. O México cuidou da abertura dos mercados, do livre comércio e da desregulamentação. O modelo do Brasil implica uma forte intervenção do governo mediante as grandes companhias controladas pelo Estado.

Ao mesmo tempo, a ascensão da China afetou Brasil e México de maneiras diferentes: a China compete com o México e compra do Brasil. O México lutou na maior parte da década passada enquanto mercadorias fabricadas na China substituíam os produtos mexicanos nos EUA, que compram 78% das exportações mexicanas. E a demanda da China por matérias primas ajudou a reerguer a economia do Brasil enquanto a estabilidade permitiu que o governo redistribuísse a riqueza e expandisse o crédito.

"O Brasil tem duas poderosas teses", diz Gray Newman, economista para a América Latina no Morgan Stanley. "Se você acredita na China, acredita no Brasil. Essa foi muito importante. A segunda é: 'Nós nos tornamos um país normal e criamos as condições para a emergência de uma classe média'. São explicações muito convincentes".

A história do México não tem sido tão positiva, diz Newman.O seu destino está atrelado aos EUA e o governo trava uma guerra contra as poderosas gangues do narcotráfico. Mesmo com a maré virando a seu favor, os mexicanos estão tão abatidos que nem se dão conta disso, dizem os analistas.

"Essa autoflagelação do México é uma doença", afirma De la Calle, cujo raciocínio é contrário a essa convicção tão arraigada e descreve o México como um país de classe média. "Quando eu disse: 'Vocês não estão tão mal quanto dizem - há razões para ter esperança no futuro', o argumento que me deram foi que o Brasil está indo muito melhor".

Na realidade, o candidato que lidera nas pesquisas de opinião às vésperas das eleições presidenciais do México, marcadas para o dia 1.º de julho, Enrique Peña Nieto, começou recentemente um debate perguntando às pessoas se achavam que sua situação tinha melhorado, e ele próprio respondeu à pergunta: "Com certeza, não".

Um dos motivos da inquietação geral é a guerra à droga no México. A visão de quilômetros e quilômetros de fábricas fora da capital industrial de Monterrey chama muito menos a atenção do que a imagem de nove corpos enforcados numa ponte na cidade fronteiriça de Nuevo Laredo. O Ministério das Finanças do México calcula que a violência anula pelo menos 1% do crescimento do PIB.

Embora a taxa de homicídios do Brasil supere a mexicana, as matanças sangrentas no México e o fato de Calderón utilizar o Exército para combater os traficantes chamaram mais a atenção para o número de mortos. Peña Nieto está certo quando afirma que o crescimento ainda não melhorou a situação de muitos trabalhadores. Os salários reais mal subiram. De fato, um dos motivos pelos quais o México tirou uma parcela de mercado da China é a discrepância cada vez menor entre os salários chineses e os mexicanos.

Brasil e México provavelmente têm mais em comum do que sua suposta rivalidade sugeriria. Cada qual estabilizou sua economia depois de passar durante décadas de uma crise a outra e melhorou o bem-estar de muitos dos seus cidadãos.

No Brasil, "os dividendos trazidos por tudo o que o país realizou na década de 90 compensaram, com uma transição política graças também à contribuição dos preços das commodities", diz Lisa M. Schineller, analista para a América Latina da Standard & Poor's. "Tudo aconteceu ao mesmo tempo".

Agora, os dois países também enfrentam em grande parte os mesmos problemas: educação inadequada, infraestrutura ultrapassada, burocracia e corrupção. A paralisia política do México impediu que o país adotasse medidas efetivas para quebrar os monopólios, reformular a legislação trabalhista, aumentar a arrecadação de impostos e abrir a companhia petrolífera mais fechada do mundo, mudanças que representariam um salto de 2,5% em sua taxa de crescimento, calcula o Instituto Mexicano para a Competitividade.

A questão é como esses países de renda média conseguirão avançar ainda mais, pondera Shannon K. O'Neal, analista para a América Latina no Conselho das Relações Exteriores. "Tentar sair de um PIB per capita de US$ 5 mil para um de US$ 10 mil é muito mais fácil do que partir de US$ 10 mil para chegar a US$ 20 mil", afirma. "Acho que é esse o desafio que ambos enfrentam". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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