México em guerra

Confrontos entre cartéis da droga mergulham país em banho de sangue, enquanto governo do presidente Felipe Calderón mobiliza aparato espetacular para enfrentar a violência

Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2010 | 00h00

Trezentos tiros contra a patrulha dos federais e o México vai abrir mais oito sepulturas. Num entroncamento tão movimentado, o céu acinzentado por testemunha, nessa manhã gelada, a morte chegou para seis agentes federais, uma policial municipal e um civil.

 

Confira o especial 'México em guerra':

 

mais imagens Olhar sobre o mundo: Violência no México

linkCalderón sofre com efeitos da luta contra o tráfico

linkGangues tomam as ruas

link'O narcotráfico está engolindo o Estado'

linkO elo do tráfico entre México e Brasil

linkImprensa sofre com as ações dos cartéis

linkLobby interno freia ação americana

São 11h40, 23 de abril, a sexta-feira terrível em Ciudad Juárez, na fronteira com El Paso, no Estado americano do Texas. Cinco automóveis deslizam pela Calle Durango até a Avenida Santiago Troncoso. Aqui, montam guarda os federais. Eles não pressentem o perigo.

Aqueles carros trazem assassinos a mando do narcotráfico, o inimigo número 1. Alguém dirá mais tarde que eram pelo menos 15 os pistoleiros e que estavam armados até os dentes e os peritos confirmarão que eles usaram fuzis AK-47, rifles de assalto AR-15 e automáticas para abater seus alvos.

A emboscada aos federais é mais um duro golpe desferido pelo crime organizado contra o governo do presidente Felipe Calderón, que mobilizou um aparato espetacular e pôs o México em guerra contra os narcos - tanques, bazucas, lança-granadas e 50 mil soldados estão nas ruas. Oito cartéis que exploram 11 Estados, pelo menos, desafiam o poder legal.

O país, que mergulhou no banho de sangue, habitua-se às execuções e chacinas à luz do dia. Já são 22,7 mil os mortos. Ciudad Juárez é o foco mais cruel.

 

Comoção. Trezentos balaços. O massacre paralisa e comove a cidade que a morte espreita. As tropas sitiam o Bosque dos Salvárcas, onde os federais foram tocaiados. Quando os primeiros pelotões chegarem, dali a uns minutos, quatro baleados já terão sido removidos para morrer no hospital Star Médica, nas imediações. Restam quatro corpos na rua. Todos policiais. Não há nada a fazer.

Daqui a pouco chegam os peritos, para sua rotina miserável - a eles cabe a missão de contar um a um os tiros que derrubaram seus colegas, definir ângulos e identificar de onde partiram os projéteis.

Corpos sangram entre a patrulha 10627, da PF, e a 367, da Polícia Municipal de Juárez. O sangue escorre pela rua em declive e acompanha o traçado da guia da calçada. O vento forte não dá trégua. Castiga os mortos e levanta as mantas brancas emborrachadas que os cobriam. Uiva e joga areia para o alto.

Cinco metros separam os dois carros da polícia, o da PF à frente, vidros furados, três pneus no chão porque teve bala para todos os lados.

Um federal está caído junto ao para-choque, de costas, braços abertos e esticados. A cabeça partida ao meio. Um pouco mais atrás, ao lado do carro da polícia municipal, três uniformizados, quase amontoados.

Vingança. Mais soldados e mais federais estão chegando. Capuzes negros escondem o rosto da polícia. Haverá vingança, ouve-se entre eles. Estão agitados, descontrolados. O próximo ataque, eles sabem, é só uma questão de tempo.

Lá em cima, o helicóptero militar risca o céu, faz manobras em círculo, desce até muito perto da rua e depois sobe de novo até virar um ponto negro nas alturas.

Uma policial estende o cordão que isola a cena do crime. Ela desenrola fitas amarelas e depois fitas vermelhas e fecha uma área de 250m², mais ou menos, que vai do posto de gasolina até o terreno do outro lado, de terra batida. A multidão avança para ver bem de perto os dilacerados, empurra a barreira, mas um escudo de coronhas a faz recuar.

Os peritos forenses estão vindo pela Calle Durango. São 12h15. Abrem caminho com suas valises, que são quase um laboratório, equipamentos de precisão e químicos para captar vestígios da chuva de balas.

São horas de um trabalho meticuloso em busca da pista promissora. Dois especialistas espalham pelo asfalto pequenos cones amarelos - que servem para marcar os pontos de onde partiram as rajadas e estabelecer a posição dos atiradores.

O perito mais encorpado, óculos de grau, ajoelha-se a um morto. Mãos que calçam luvas recolhem aqui e ali pedaços de chumbo calibres 3.08, 7.62, .39 e 9 mm.

Faz cinco graus às 12h58 em Juárez.

Do lado de cá, contida pelos cordões, ela chora nos ombros de um rapaz de boné e brincos que lhe faz companhia. "Saiu cedo para trabalhar, não volta nunca mais para casa", soluça. É uma menina, ainda. Ela aponta para um daqueles que está no chão. E põe-se a correr, sem rumo.

Mensagem. A noite cai em Ciudad Juárez. No grande paredão branco da Calle Colômbia, rabiscam uma longa mensagem. É gente de La Línea, que assume a autoria da matança.

La Línea tem sede de sangue, é rival de "El Chapo", comandante do Cartel do Golfo. A pichação no muro acusa federais de dar apoio ao oponente.

A Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Federal emitem um comunicado conjunto. Atribuem a ofensiva dos bandidos às "contundentes detenções realizadas nas últimas horas".

Os federais reafirmam seu compromisso de proteger a comunidade. "Continuamos firmes no combate à delinquência para recuperar o México que nos pertence."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.