México estuda criar ''patrulha civil''

Estado de Chihuahua pode armar e treinar membros de comunidade mórmon para combate ao narcotráfico

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2009 | 00h00

Devastada pela onda de violência ligada ao tráfico de drogas e desconfiada do trabalho feito pela polícia, a pequena comunidade de mórmons Colonia LeBaron, no norte do México, decidiu fazer justiça com as próprias mãos exigindo a aprovação do governo para a criação de uma força de segurança comunitária. Para a surpresa dos próprios residentes do vilarejo, as autoridades do Estado de Chihuahua concordaram com a ideia e consideram dar treinamento - e armas - para a população criar uma espécie de patrulha civil."Há 77 moradores da Colonia LeBaron que estão dispostos a participar da polícia comunitária", afirmou Patricia González, procuradora-geral do problemático Estado de Chihuahua, considerado o feudo do cartel de Juárez. "Estamos tomando as decisões necessárias para que eles possam trabalhar no combate de crimes e coordenar investigações com as autoridades apropriadas."A iniciativa da comunidade foi tomada após dois de seus residentes - Benjamin LeBaron, de 32 anos, e Luis Widmar, de 29 anos - terem sido assassinados por atiradores ligados aos cartéis de drogas no início do mês. LeBaron era um conhecido ativista que lutava contra a violência. Em maio, ele reuniu mais de 2 mil manifestantes em uma marcha contra o sequestro de seu irmão Eric, de 19 anos.Mesmo depois de o jovem ter sido libertado, LeBaron continuou cobrando uma maior presença da polícia na região e montou um comitê especial para comunicar qualquer atividade suspeita das autoridades locais. Pressionado, o Exército aumentou suas ações na área e prendeu 25 homens suspeitos de envolvimento com o narcotráfico. Os assassinos de LeBaron deixaram uma faixa afirmando que sua morte era para vingar essas prisões."Dissemos ao governo que não confiamos em nossa polícia local, pois seus membros estão sempre na lista de pagamentos dos traficantes", afirmou à agência de notícias Associated Press o irmão de LeBaron Julian. "Eles nos disseram que estariam dispostos a treinar pessoas da comunidade para que nossa polícia seja formada por pessoas em quem confiamos."Quando assumiu o governo, há três anos, o presidente Felipe Calderón deparou-se com o aumento da violência relacionada ao narcotráfico, aliada à incapacidade e à corrupção das polícias municipais e estaduais."O culpado pela atual situação da polícia é o próprio governo que não a treinou de maneira adequada", afirmou ao Estado, por telefone, o consultor em segurança Mario González-Román, diretor do site SecurityCornerMexico.com.Diante da situação, Calderón mobilizou 47 mil militares e 8 mil policiais federais para combater o narcotráfico e a violência da guerra entre cartéis que, só no ano passado, deixou 6 mil mortos.PORTE DE ARMASA reivindicação dos moradores da pequena comunidade dividiu analistas e reacendeu o debate sobre o direito ao porte de armas no México. Rigorosas leis restringem o uso da maioria das armas a policiais e soldados. No entanto, o tráfico de armas é um grande problema para o país que, em abril, criou em parceria com os EUA um grupo de trabalho para tentar combater o problema.O especialista em forças armadas Raúl Benitez, da Universidade Nacional do México, afirmou que a medida ressalta a incompetência de Calderón. "Os habitantes de LeBaron cogitaram de pedir ajuda do FBI (polícia federal dos EUA) para solucionar o caso e essa demanda é muito ruim para o governo, pois mostra sua incapacidade de proteger a população", disse Benitez. "Mesmo assim não acredito que este seja o início da criação de grupos paramilitares que cuidarão da segurança pública no México."Já González-Román acredita que a ideia é perigosa. "Armar a população não é a resposta para o problema de LeBaron", afirmou. "Em um cenário como este, há o sério risco de a situação na região ficar fora de controle e ainda pior."

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