México faz fortuna à custa dos EUA, diz Trump ao justificar tarifas

Presidente ignorou preocupações de aliados, empresários e investidores, que temem que Casa Branca esteja expandindo sua guerra comercial

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2019 | 22h19

WASHINGTON - O presidente dos EUA, Donald Trump, defendeu nesta sexta-feira, 31, sua decisão de impor tarifas sobre as importações do México, ignorando aliados, empresários e investidores que temem que a Casa Branca esteja expandindo sua guerra comercial, já travada com a China, sem um plano B. “O México faz fortuna à custa dos EUA, por décadas, eles podem arrumar isso rapidamente”, tuitou Trump. 

Se a nova taxa de 5% fosse aplicada sobre o total que os EUA importam do México, somente do ano passado, o impacto seria de US$ 17 bilhões. No entanto, a taxa de 5% seria apenas a primeira entre as tarifas, que serão escalonadas e poderão chegar a 25%, em outubro, o que teria um impacto de até US$ 87 bilhões. A maior parte dos custos deve ser repassada para os consumidores nos EUA. 


Na quinta-feira, Trump deu início a um novo capítulo em sua cruzada protecionista ao anunciar que aplicará, a partir do dia 10 novas, tarifas ao México sob o pretexto de conter o fluxo de imigrantes ilegais na fronteira. 

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, demonstrou cautela e enviou seu chanceler, Marcelo Ebrard, para negociar um acordo em Washington. O impacto das taxas seria devastador para o país, que envia 80% de suas exportações para os americanos. 

O México é parte fundamental da economia dos EUA. É fonte de importação de produtos distribuídos em 1.230 categorias. No topo da lista estão os componentes para a indústria automobilística. Dois terços das importações americanas do México são partes intermediárias que as companhias dos EUA utilizam para produzir algum item e carro é o principal deles, segundo o economista da Deutsche Bank Securities Torsten Slok, em entrevista ao Washington Post. Além disso, as companhias americanas cada vez mais buscam por matéria-prima, como ouro para a indústria de tecnologia. 

Com a guerra comercial se intensificando, México está competindo para se tonar o maior parceiro comercial dos EUA. O anúncio de Trump das novas tarifas foi feito no mesmo dia em que se iniciou o processo de ratificação do acordo de livre-comércio da América do Norte, o T-MEC (na sigla em espanhol), selado em novembro entre EUA, México e Canadá, que passou por uma reformulação. O tratado anterior firmado nos anos 90, o Nafta, transformou o México em uma pedra angular para o processo de produção de muitas companhias americanas. 

Se para companhias americanas existe a possibilidade de mudar para outro fornecedor de um país diferente sem muito custo adicional, há outras empresas mais difíceis de é mais difívil de encontrar alternativas de baixo custo, uma vez que já escolheram o México por esse motivo.

É o caso das importadoras de produtos frescos, como tomates, couve-flor e alface, assim como as de equipamentos pesados como tratores e caminhões. Um caso especial, segundo o New York Times, é o da cerveja. Marcas como Corona e Modelo Especial estão entre as mais vendidas dos EUA . 

Segundo o New York Times, não são só as tarifas que devem elevar os produtos nos EUA, uma vez que muitas indústrias americanas, como a agricultura, também depender de compradores mexicanos. Há cerca de 126 milhões deles - para cada um canadense, há 3,5 mexicanos para comprar os produtos americanos. 

A retaliação do México contra as tarifas anteriores de Trump contra o aço e alumínio custou aos produtores de suínos cerca de US$ 12 por animal, disse Randy Spronk, agricultor de Minnesota, ao Washington Post.

PARA ENTENDER 

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma que ainda é cedo para avaliar impactos no Brasil da decisão de Donald Trump. Segundo a entidade, uma possibilidade seria o México aumentar o envio de peças para o Brasil. 

Já os automóveis exportados para os EUA, normalmente de grande porte, não são os mesmos vendidos no mercado brasileiro, que tradicionalmente são menores. 

Mesmo que algum modelo fabricado no México venha para o Brasil, levaria algum tempo para chegar ao mercado pois, antes de começar a ser vendido, precisaria passar por processo de homologação. / NYT e W. POST

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