REUTERS/Jose Luis Gonzalez
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México sugere ação de Brasil, Panamá e Guatemala para conter imigrantes

Chanceler Marcelo Ebrard afirmou que se medidas tomadas pelo país na fronteira com EUA não surtirem efeito pode ser necessário espécie de 'sistema regional'

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 11h55
Atualizado 11 de junho de 2019 | 22h13

CIDADE DO MÉXICO - O México e os Estados Unidos podem cogitar ações adicionais para restringirem a imigração ilegal saída da América Central, incluindo medidas para envolver Brasil, Panamá e Guatemala em esforços para combater o problema, disse o ministro das Relações Exteriores mexicano, Marcelo Ebrard.

Na noite de segunda-feira, 10, Ebrard afirmou que as medidas podem ser necessárias se um acordo entre Washington e o México, anunciado na semana passada, não conseguir reduzir em 45 dias o número de imigrantes, a maioria centro-americanos, entrando no México rumo à fronteira dos EUA.

O acordo evitou a imposição de tarifas sobre as importações de todos os bens mexicanos, algo que o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou fazer a menos que o México trabalhe mais para deter a imigração ilegal com destino ao seu país.

Pelo acordo, os mexicanos expandirão rapidamente um programa por meio do qual os imigrantes que solicitaram asilo nos EUA aguardam o processo no México. O país também prometeu reforçar sua fronteira sul com a Guatemala com 6 mil membros da força policial militarizada da Guarda Nacional, além de outras medidas.

Mas ainda na segunda Trump disse que levará as tarifas propostas adiante se o Congresso mexicano não aprovar uma parte ainda não revelada do acordo que os EUA pleiteiam há muito tempo. “Não prevemos um problema na votação mas, se por alguma razão, a aprovação não estiver próxima, as tarifas serão reinstauradas”, escreveu ele no Twitter.

Ebrard disse que Trump se referiu a possíveis medidas adicionais para pressionar outros países que não os EUA para que estes dividam o fardo. Embora não tenha entrado em detalhes, Ebrard sugeriu que os requerentes de asilo poderiam ter que procurar refúgio no primeiro país a que chegaram depois de deixarem sua terra natal. Os governos do Panamá e Guatemala não responderam imediatamente aos pedidos de comentários sobre a questão. O Itamaraty disse ao Estado que não foi contatado por nenhum governo sobre o assunto.

Rotas. Imigrantes de El Salvador e Honduras em busca de asilo passam primeiro pela Guatemala quando deixam seus países, enquanto que cubanos e haitianos normalmente usam o Panamá como parada na jornada até o México antes de tentarem cruzar para os EUA. Já os que fogem de países africanos costumam voar para o Brasil antes da árdua jornada ao Norte.

Segundo o governo americano, no ano fiscal de 2019, que começou em outubro, foram apreendidas na fronteira do México com os EUA 27 mil pessoas de 37 países – exceto México. De acordo com o jornal USA Today, apenas no posto fronteiriço de Del Rio, no Texas, o número de detenções de não mexicanos aumentou 500% em relação ao ano passado. 

Na semana passada, diz o jornal, um grupo de 37 congoleses foi preso ao tentar entrar nos EUA pela passagem de Del Rio. Apesar do aumento, o número de africanos ainda é irrisório diante do total de centro-americanos que fazem a travessia.

Estatísticas do governo americano mostram que apenas 367 imigrantes africanos foram presos na fronteira em 2018, um aumento de 44,5% em relação a 2017. No mesmo período, mais de 380 mil centro-americanos – incluindo 155 mil mexicanos – foram apreendidos ao tentarem entrar nos EUA.

O número relativamente baixo de africanos apreendidos se explica, segundo o USA Today, pelo fato de a maioria dos imigrantes da África preferir aguardar a conclusão do processo de asilo no México – o fato de não terem família ou conhecidos do lado americano faz com que eles não arrisquem a travessia.

O Brasil tem um papel duplo no fluxo regional de imigração. “O Brasil tem um papel curioso em nível mundial, mesmo sem conter os maiores índices de imigração. Pode ser tanto um país intermediário quanto um destino final”, afirma o coordenador do Projeto de Promoção dos Direitos dos Migrantes da USP, Victor Del Vecchio.

Enquanto alguns imigrantes de países africanos e asiáticos constroem uma rota incluindo o Brasil como parada estratégica, por uma “questão de fiscalização”, segundo Del Vecchio, a maioria daqueles que procuram viajar para os EUA, partindo do território brasileiro, tinha planos de se estabelecer aqui, mas mudou de ideia.

“Eles ficam decepcionados com o custo de vida e com os salários que não compensam”, explica o padre Paolo Parise, coordenador da entidade Missão Paz. As rotas que saem do Brasil em direção aos EUA são diversas e variam de acordo com o dinheiro disponível. “O caminho mais barato é por terra, via Acre. Um imigrante me disse que pagou US$ 6 mil”, afirma Parise.

Del Vecchio explica a variação entre rotas aéreas e terrestres. “Uma rota frequente tem o Equador como ponto de parada, que tem uma política de vistos mais fácil do que de outros países. É um voo menos fiscalizado”, conta.

O presidente da ONG África do Coração, Jean Katumba Mulondayi, relata que cinco grupos, cada um com uma rota diferente, chegaram a sair ao mesmo tempo do Brasil. Ele acompanhou uma viagem ao Equador, seguindo para Costa Rica, México e EUA. “Eles saem sem saber o que vai acontecer. O destino fica nas mãos de Deus”, afirma. 

O acordo entre EUA e México, anunciado na sexta-feira, evitou a imposição de tarifas gradativas sobre as importações de todos os bens mexicanos. Mesmo com todas as concessões, o governo americano foi criticado no fim de semana por ter capitulado nas negociações.

Por isso, desde segunda-feira, Trump garante que levará as tarifas adiante se o Congresso mexicano não aprovar uma parte ainda não revelada do acordo que os EUA pleiteam há muito tempo. Ontem, o presidente americano garantiu que o acordo tinha trechos “secretos” e exibiu uma folha de papel, sem mostrar detalhes. O governo mexicano nega que haja partes não divulgadas do acordo com Trump. / AP, WP e REUTERS, COM CARLA BRIDI

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