Mianmar busca espaço em uma nova era

Presidência da Asean é a chance de dar um passo adiante

É CHEFE DE GABINETE DO , PRESIDENTE DE MIANMAR, ZAW, HTAY, THE WASHINGTON POST, É CHEFE DE GABINETE DO , PRESIDENTE DE MIANMAR, ZAW, HTAY, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h05

Quando o presidente Barack Obama se encontrar esta semana com seus colegas da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Bali, deverá apresentar várias iniciativas de grande destaque. Washington evidenciou a importância da região da Ásia-Pacífico para o século 21 e sua intenção de manter na área sua presença.

Mianmar empreendeu numerosas revoltas sem que ocorresse uma mudança de regime, incluindo a chamada "primeira onda", após a queda do Muro de Berlim, a Revolução do Açafrão, em 2007, e eleições multipartidárias, em novembro de 2010. A situação política do país não pode ser comparada à primavera árabe, porque no passado Mianmar superou revoltas como as que ocorreram no mundo árabe.

O caminho trilhado por Mianmar está indissoluvelmente ligado às necessidades do nosso país. Washington e o Ocidente precisam compreender que o nosso presidente é um firme reformador político e nossa proposta para que Mianmar assuma a presidência da Asean, em 2014, aceleraria o processo.

Mianmar precisa se preocupar com a reforma do antigo sistema construindo, simultaneamente, a sociedade pela qual a comunidade internacional espera há muito tempo. É esse o drama político do Sudeste Asiático.

O presidente Thein Sein é a esperança de toda a nação, até das minorias étnicas, do povo como um todo e da classe média. Aung San Suu Kyi disse acreditar que Sein "esteja sendo totalmente autêntico em seu desejo de implementar um processo de democratização". No entanto, ele precisa de forte apoio da comunidade internacional para nos conduzir a uma nova era. Será imprescindível que Washington e outros mudem sua estratégia de duas vias em relação a Mianmar se quiserem que o país se torne uma nação democrática de acordo com os seus valores e normas.

No curto prazo, Mianmar necessita de ajuda e de intercâmbio, de investimentos externos diretos e de oportunidades de negócios. As sanções financeiras têm de ser levantadas e é imprescindível melhorar áreas como educação pública e saúde. Se Mianmar não vencer essas batalhas, não poderá evoluir.

Aliado estratégico. O que o Ocidente deve levar em conta é que, na atual situação geopolítica, considerando a ascensão da China, precisa de Mianmar. Nessa conjuntura crítica, Washington e outros governos devem facilitar o relacionamento de Mianmar com o mundo exterior. Se os EUA negligenciarem essa oportunidade, estarão imprimindo um rumo diferente em relação à nova ordem na região da Indochina.

Quando Sein chegou ao poder, em março, anunciou um programa de reformas sem precedentes, como um governo transparente, boa governança, redução da pobreza, reconciliação nacional, desenvolvimento e industrialização. Seu empenho em conduzir o processo de reformas impressionou muitos dentro e fora do país.

O presidente promoveu avanços extraordinários nos últimos oito meses. Diante dos inúmeros desafios com que se defronta, ele tenta implementar o processo democrático. O governo americano precisa compreender sua situação política - para cada passo para frente, há um passo mais difícil para trás. O Ocidente deveria encorajá-lo, não apenas encurralá-lo e exercer pressões sem abrir minimamente mão de suas posições.

Muitos observadores acreditam que Mianmar esteja se aproximando de um novo começo. As pessoas começaram a se dar conta de que podem dizer abertamente o que querem, que podem questionar o governo e fazer reivindicações aos legisladores. São os resultados concretos das eleições de 2010.

A tentativa dos EUA de isolar mais Mianmar nessa conjuntura seria um desastre. Enquanto o país abre suas portas ao mundo exterior, será importante que Washington cruze esse limiar. Obama deve apoiar firmemente Sein e a democratização de Mianmar. Na cúpula de Bali, a Casa Branca precisa construir oficialmente uma ponte diplomática com o nosso país, apoiando o pedido para ocupar uma cadeira na Asean.

Alguns manifestaram dúvidas quanto à capacidade do governo de Mianmar, à confiança da população em seus líderes e nas implicações políticas da possibilidade de Mianmar assumir a presidência. Seria esse um passo para o levantamento das sanções internacionais? Em primeiro lugar, assumindo essa responsabilidade, Mianmar alcançaria um status de projeção no cenário internacional. O ponto fundamental é uma questão de orgulho para o povo de Mianmar e não para o presidente e seu governo.

Em segundo lugar, Mianmar se fechou durante décadas ao mundo exterior. Muitas pessoas nessa região - e mesmo em outros países - pressionam o país ou o olham com reservas e questionamentos. O país foi historicamente um elemento muito forte da região e deveria poder reconquistar a posição que lhe é de direito. Mianmar evoluiu politicamente por conta própria. No fim de 2010, implementou uma nova Constituição e seus efeitos estão vingando.

A China ascendeu ao cenário mundial com a Olimpíada de Pequim. A cadeira na Asean é a oportunidade de Mianmar de dar um grande passo adiante. Essa questão precisa ser levantada, e não adiada, na cúpula do fim do ano.

Sein pretende presidir a Asean assim como vem conduzindo Mianmar - mantendo seu compromisso de melhorar o desenvolvimento político, social e econômico, sem pressões ou influências externas. O país mostrou que tem capacidade para se governar por conta própria. Está na hora de a comunidade internacional e o povo de Mianmar virarem a página. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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