Mianmar condena Nobel da Paz

Corte sentencia opositora Aung San Suu Kyi a mais 18 meses de prisão domiciliar e causa revolta internacional

Reuters, RANGUM, MIANMAR, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

Um tribunal de Mianmar (antiga Birmânia) sentenciou ontem a líder oposicionista Aung San Suu Kyi a mais 18 meses de prisão domiciliar. Suu Kyi passou presa 14 dos últimos 20 anos. O veredicto, que provocou uma forte reação negativa na comunidade internacional, manterá Suu Kyi afastada do cenário político birmanês durante as eleições programadas para 2010. O tribunal condenou a oposicionista a 3 anos de prisão por violação da lei de segurança nacional, mas a sentença foi imediatamente reduzida à metade por ordem do regime militar, que permitiu que ela cumpra a pena em sua casa em Rangum, principal cidade e ex-capital de Mianmar. O advogado recorrerá da sentença.O ministro do Interior, general Muang Oo, compareceu ao tribunal para anunciar a redução da pena. Ele disse que a junta militar levou em conta o fato de que ela é filha de Aung San, herói da independência da Birmânia. "É preciso preservar a paz e a tranquilidade comunitárias e impedir quaisquer distúrbios no mapa para a democracia", disse Oo. O termo "mapa da democracia" refere-se a um plano da ditadura para supostamente democratizar o país. As eleições multipartidárias de 2010 são fundamentais no projeto dos militares. Suu Kyi, de 64 anos, envolveu-se ainda muito jovem na política, liderando a Liga Nacional para a Democracia (LND), principal movimento de oposição aos militares birmaneses. Em 1989, ela foi presa pela primeira vez. No ano seguinte, o LND venceu as eleições gerais, mas a junta militar nunca permitiu que ela assumisse o poder.Desde então, Suu Kyi alternou breves meses de liberdade com longos períodos de detenção. Em 1991, ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz, mas o governo jamais permitiu que ela recebesse o prêmio. A última sentença de prisão contra a opositora havia sido proferida em 2003, quando ela foi detida, segundo autoridades birmanesas, "para sua própria proteção", em razão de confrontos entre forças do governo e membros da LND.Em maio, faltando poucos meses para sua pena expirar, o americano John William Yeattaw foi preso depois de ter entrado na casa onde Suu Kyi era mantida. O episódio foi a desculpa perfeita para o governo prolongar um pouco mais a prisão da opositora.Ex-colônia britânica, a Birmânia obteve sua independência em 1948. Desde então, enfrenta disputas políticas e conflitos étnicos. Em 1962, os militares deram um golpe de Estado e transformaram o país em uma das ditaduras mais brutais do planeta.REAÇÃOO Conselho de Segurança da ONU reuniu-se ontem a portas fechadas para discutir a nova sentença de Suu Kyi. O secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, deplorou a condenação. Marie Okabe, porta-voz da ONU, afirmou que o conselho está discutindo ações contra Mianmar. Mas, para analistas, as chances de a ONU adotar sanções são remotas, pois a China, que tem poder de veto e é a maior parceira comercial de Mianmar, sempre foi contra. Fora do âmbito da ONU, contudo, a União Europeia disse vai endurecer as sanções que mantém contra Mianmar. Londres e Paris pediram embargos globais de armas e de relações econômicas com o regime. O presidente dos EUA, Barack Obama, fez um apelo pela libertação "imediata e incondicional" de Suu Kyi. Em nota, o Itamaraty também deplorou a condenação.

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