Mianmar desocupa acampamentos de vítimas de ciclone

Governo militar teme que assentamentos em que sobreviventes estão abrigados se tornem permanentes

Reuters,

30 de maio de 2008 | 11h03

A junta militar de Mianmar começou a desocupar os acampamentos montados para receber vítimas do ciclone Nargis, aparentemente por temor de que se tornassem assentamentos permanentes. "É melhor que se mudem para suas casas, onde estão mais estáveis", disse um funcionário público num acampamento onde as pessoas receberam ordens para sair até as 16h (6h30 em Brasília). "Aqui [as famílias] dependem de doações, que não são estáveis."   Moradores e trabalhadores humanitários dizem que 39 acampamentos estão sendo desocupados só nos arredores de Kyauktan, 30 quilômetros ao sul de Rangun, maior cidade birmanesa. Eles dizem que isso é parte de um plano geral de desativação dos campos.   "Sabíamos que em algum momento teríamos de ir, mas esperávamos mais apoio", disse Kyaw Moe Thu, 21 anos, motorista de um triciclo-táxi, que foi expulso do seu acampamento junto com cinco irmãos e irmãs, a mais nova de dois anos e meio. O grupo recebeu 20 bambus e algumas lonas para reconstruírem suas vidas no delta do rio Irrawaddy, onde a passagem do ciclone Nargis, no dia 2, deixou 134 mil mortos e desaparecidos. "Agora estamos frustrados. O governo havia prometido 30 bambus. Disseram que receberíamos arroz todo mês, mas até agora nada."   A ONU diz que menos de metade dos 2,4 milhões de afetados pelo ciclone receberam alguma forma de ajuda do governo e das entidades humanitárias internacionais, cujo trabalho foi dificultado pelo regime militar. Mas as Nações Unidas, que operam em vários pontos do delta do Irrawaddy, não confirmam os rumores sobre desocupações generalizadas. Em Bangcoc, uma porta-voz da entidade disse que expulsar prematuramente os refugiados seria "completamente inaceitável".   Na véspera, a imprensa estatal birmanesa criticou governos e ONGs do exterior por exigirem acesso humanitário ao delta, alegando que as vítimas podem "se virar sozinhas". "O povo do Irrawaddy pode sobreviver autonomamente, sem as barras de chocolate doadas por países estrangeiros", disse o jornal Kyemon em editorial.   A mídia local é rigidamente controlada pelo Exército, cujo pensamento supostamente reflete. Até agora, o regime vinha dando sinais de que aceitaria a contragosto a ajuda internacional. Mas, uma semana depois de o general Than Shwe, chefe da junta militar, prometer acesso para todos os trabalhadores humanitários, a burocracia continua emperrando os trabalhos, apesar de os últimos 45 vistos para a ONU terem sido aprovados na quarta-feira.   "É particularmente importante que a Cruz Vermelha e as ONGs internacionais recebam acesso imediato, livre e desimpedido ao delta", disse Terje Skavdal, coordenador humanitário da ONU, em Bangcoc. Segundo ele, a autorização para o acesso de funcionários ao delta está levando apenas dois dias, em vez de duas semanas, mas representantes de outras instituições continuam enfrentando dificuldades.

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