Micheletti dá primeiro sinal de que pode negociar

Presidente de facto se diz pronto para aceitar arranjo político que antecipe a eleição de 29 de novembro

Gustavo Chacra, TEGUCIGALPA, O Estadao de S.Paulo

03 de julho de 2009 | 00h00

No primeiro sinal de concessão do governo de facto de Honduras, o presidente designado Roberto Micheletti disse ontem que não tem "nenhuma objeção" em antecipar as eleições programadas para 29 de novembro. Segundo Micheletti, essa seria uma possível saída para a crise causada pela deposição do presidente Manuel Zelaya.Questionado em entrevista coletiva se, diante de uma eventual proposta da Organização dos Estados Americanos (OEA), aceitaria convocar uma votação antecipada, Micheletti disse que estaria "totalmente de acordo". Mas, ele garantiu que a decisão precisaria de um "arranjo político" para ser concretizada. Micheletti também declarou que gostaria que Zelaya não voltasse no fim de semana a Honduras, como anunciado, para evitar um derramamento de sangue. "Para a paz e a calma do país, eu preferiria que ele não entrasse. Não quero nem uma gota de sangue derramada por nosso país", disse.O governo de facto de Honduras enfrentará dificuldades para impedir o retorno de Zelaya. Apesar de, em Tegucigalpa, a imprensa local descartar a possibilidade de reinstalação do presidente deposto, analistas afirmam que este é o cenário mais provável dos que vêm sendo projetados.Com o desembarque de Zelaya no aeroporto da capital hondurenha, previsto para amanhã, quando se encerra o ultimato de 72 horas da OEA, o professor de política da América Latina da Universidade de Nova York (NYU), Patricio Navia, afirmou ao Estado que existem três resultados possíveis para a crise e todos estariam num contexto de negociações já existentes. No primeiro deles, diz Navia, "Zelaya retorna como presidente, mas teria de abdicar de qualquer iniciativa para alterar a Constituição hondurenha com o intuito de tentar se reeleger. A segunda possibilidade seria o governo de facto aceitar o retorno dele como presidente, mas antecipando as eleições". Uma última possibilidade seria o retorno de Zelaya, mas a convocação imediata de uma consulta popular para determinar se o presidente deposto pode ou não cumprir o seu mandato até o final.A agência de risco político Eurásia também trabalha com três cenários. A primeira opção, com 40% de possibilidade de ocorrer, segundo a análise, prevê um retorno de Zelaya, mas não como presidente. O governo de facto, em troca, levantaria as acusações contra ele e não o prenderia. Eleições antecipadas seriam convocadas imediatamente para reduzir a tensão. O segundo cenário, com 30%, implicaria em Zelaya voltar e terminar o mandato, com o governo de facto cedendo às pressões internacionais. No terceiro, também com 30%, Micheletti consegue sobreviver até janeiro, quando assumiria o novo presidente, apesar das dificuldades financeiras.

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