REUTERS/Emily Elconin
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Michigan retrata as dificuldades de Trump para se reeleger em novembro

Estado, que deu a vitória ao republicano em 2016 e é crucial para as próximas eleições, tem uma das taxas mais elevadas de mortes por covid-19, o terceiro pior índice de desemprego dos EUA e abraçou um discurso mais moderado

Beatriz Bulla, ENVIADA ESPECIAL A MICHIGAN, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 05h00

Michigan tornou-se um símbolo de como Donald Trump ganhou de Hillary Clinton em 2016. O republicano teve cerca de 10 mil eleitores a mais no Estado, o suficiente para ganhar os 16 delegados da região no Colégio Eleitoral. Com vitórias também nos Estados vizinhos do chamado Cinturão da Ferrugem, Trump tornou-se presidente apesar de ter 3 milhões de votos a menos do que a democrata. Nos últimos meses, Michigan tem afastado o presidente da reeleição ao se tornar um microcosmo da escalada de crises social, de saúde e econômica nos EUA.

A taxa de mortes por covid-19 é das mais altas do país, o índice de desemprego é o terceiro pior, o isolamento social e o uso de máscara racharam a população a ponto de provocar protesto armado e uma morte. O racismo foi escancarado na pandemia, as manifestações após a morte de George Floyd chegaram a cidades conservadoras e a reabertura econômica precisou ser revista na semana passada. 

Michigan é crucial para a vitória eleitoral em novembro, seja de Trump ou de Joe Biden. A fotografia captada pelas pesquisas mais recentes mostra que a turbulência interna acima da média nacional e a opção de Trump pelo radicalismo na resposta às crises têm pavimentado o caminho para Biden, que saiu de uma vantagem de 3 pontos porcentuais em Michigan em abril para 9,7 pontos.

“Para uma área conservadora, ver as manifestações do Black Lives Matter na cidade de Grand Rapids, com muitas pessoas brancas, foi surpreendente. O clima mudou. As pessoas estão abertas a uma linha muito mais moderada do que a que o presidente tem adotado como resposta aos protestos”, diz Gary Stark, presidente do comitê democrata de Kent County.

No oeste do Estado, Grand Rapids é a maior cidade de Kent County, um distrito que era considerado território seguro para os republicanos até a eleição de Barack Obama em 2008. Em 2016, Trump recebeu 48% dos votos e Hillary, 45% – uma diferença de 9,5 mil eleitores. A campanha de Biden aposta no maior comparecimento do eleitorado de alta escolaridade dos subúrbios e dos jovens da região, impulsionados pelo sentimento anti-Trump.

Quem visita Grand Rapids recebe como recomendação dos moradores locais ir ao Museu Presidencial Gerald Ford. O fato de o 38.º presidente americano ter crescido na cidade é motivo de orgulho entre eleitores de qualquer espectro político. Republicano, Ford assumiu depois da renúncia de Richard Nixon em meio ao escândalo Watergate e ficou conhecido como um líder moderado. No museu, a palavra “bipartidário” está gravada em relevo em uma das paredes.

A cidade passou a ser identificada como a terra dos republicanos moderados – que não são a base fiel de apoio de Trump, especialmente quando o presidente decide radicalizar o discurso. “Os ‘republicanos Gerald Ford’ dizem que Trump foi longe demais”, afirma Stark.

Alguns sinais dão esperança aos democratas. Nas eleições de 2018, a maioria dos eleitores de Kent County votou na democrata Gretchen Whitmer para o governo estadual. No ano seguinte, o deputado republicano Justin Amash, que representa o condado na Câmara, rompeu com Trump e se tornou independente. Esta será a primeira eleição presidencial em que o voto por correio está autorizado no Estado sem necessidade de justificativa – um pleito dos democratas durante a pandemia.

Dos 538 delegados do Colégio Eleitoral, cerca de 100 estão em disputa. Biden tem mais de 50% das intenções de voto em três dos Estados relevantes: Michigan, Pensilvânia e Wisconsin, segundo a média calculada pelo site FiveThirtyEight, que agrega as pesquisas eleitorais. Hillary liderava também nestes três Estados em 2016, mas nunca cruzou a marca de mais da metade das intenções de voto, segundo o mesmo site. 

Para o escritor e ativista social Yusef Shakur, que vive em Detroit, do outro lado do Estado, os protestos após a morte de George Floyd foram uma “explosão” de demandas da população negra. Michigan foi um dos primeiros Estados a ter dados que mostraram que a letalidade da covid-19 é desproporcionalmente maior entre negros do que em brancos. Os cidadãos negros representam 14% da população de Michigan, mas 40% dos mortos pela doença. A antiga capital mundial do carro, que entrou em concordata em 2013 e virou símbolo da destruição do sonho americano, passou a viver nos últimos anos um renascimento.

As ruas do centro de Detroit têm tapumes de grandes obras de complexos comerciais ou ruínas de prédios abandonados – e, às vezes, as duas coisas juntas. Shakur afirma que a população negra, cada vez mais empurrada aos subúrbios, ficou excluída do esplendor da cidade vendido em panfletos publicitários de um centro renovado.

“Esse é um Estado predominantemente branco. A maioria branca está querendo ir ao bar, ao restaurante, à barbearia. Enquanto isso, em Detroit, nós (negros) estamos lutando pela vida, contra o coronavírus e contra o assassinato policial”, afirma Shakur. Centenas de manifestantes armados, alguns com fuzis, protestaram no legislativo estadual contra as medidas de isolamento adotadas pela governadora democrata. Em maio, o segurança de uma loja foi assassinado a tiros na cidade de Flint, também em Michigan, após exigir que um cliente colocasse a máscara.

A base de Trump no Cinturão da Ferrugem é formada por homens brancos sem diploma universitário. Em 2016, o republicano venceu ao prometer restrições à imigração para proteger empregos dos americanos. A crise econômica que atinge o país coloca em xeque o discurso antigo, mas Trump tem tentado reduzir o tamanho do problema. “A economia americana está voltando à vida como nunca se viu antes”, afirmou o presidente nesta semana quando a taxa de desemprego caiu de 14,7% em maio para 11,1% em junho.

Mas os dados ainda são ruins: mais de 7 milhões de americanos declararam em junho que gostariam de estar no mercado de trabalho e não estão. Antes da pandemia, a taxa de desemprego era de 3,5%. Em Michigan, a taxa de desemprego, de 21,2% em maio, é a terceira pior do país.

“Trump não terá oponente no oeste do Michigan”, diz Tom Norton, que disputa a nomeação do Partido Republicano para concorrer a uma vaga na Câmara e aposta nos conservadores do Estado.

Frequentador da CPAC, a conferência que se tornou a meca do conservadorismo, Norton tem posições mais extremas do que o presidente. Ele duvida das pesquisas eleitorais, afirma que não há comprovação de que máscaras caseiras protejam contra o coronavírus (apesar de pesquisas científicas terem confirmado o contrário) e defende que os negócios sejam reabertos de uma vez, para que as pessoas fiquem doentes depressa e a crise seja superada. “Tem de reabrir. As pessoas que ficarem doentes são as que não usam álcool desinfetante de mãos. Olha a Suécia, está funcionando muito bem”, afirma. Países que tentaram essa estratégia, a busca da imunidade de rebanho – de eficácia não comprovada –, precisaram voltar atrás. Mesmo Trump critica o método.

A maioria dos moradores do Estado (64%) diz aprovar as medidas da governadora democrata para conter o vírus. Entre os independentes, a aprovação é semelhante, de 65%.

Republicanos do comitê local do partido têm uma visão diferente da de Norton sobre a situação de Trump. Sob reserva, um integrante do partido afirma que Trump pode ter problemas com um eleitorado moderado, cansado de divisões partidárias, que apoiou o atual presidente em 2016. O sucesso do presidente, diz esse mesmo republicano, depende da percepção local sobre a economia. Questionado algumas vezes sobre o que deixa eleitores da região desconfortáveis sobre Trump, Norton responde: “A    única coisa que as pessoas mencionam como negativo é o que ele fala no Twitter”.

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