Rodrigo Cavalheiro/AE
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Microempresas tornam 'lucro' palavra corrente em Cuba

Número de microempresários cubanos saltou de 148 mil para 333 mil em um ano

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Havana, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2011 | 03h01

HAVANA - "Um abacate com camarões de entrada e uma lagosta fatiada de 'prato forte'", grita o garçom a caminho da cozinha. Sentada em um banco ao lado do bar, Leticia Garrido anota em um caderninho o pedido do cliente que acaba de ocupar a última das sete mesas do restaurante. "Meu lucro não chega a 20%, mas o negócio vai bem", explica esta ferreira que há um ano aposentou soldas e tornos para transformar seu ateliê em um "paladar" - apelido dado pelos cubanos a seus restaurantes. Os paladares são a mais evidente cara do aumento dos pequenos negócios no país. Em um ano, o número de "cuentapropistas", eufemismo castrista para microempresário, saltou de 148 mil para 333 mil.

 

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O uso assim espontâneo e sem vergonha da palavra "ganancia", que em espanhol significa lucro, é uma pequena revolução entre os ressabiados empreendedores cubanos. No ramo gastronômico, a última vez que tinham se animado a exercitá-la fora no início dos anos 90, com o fim da União Soviética. Mais por necessidade do que por ideologia.

"Quando a ajuda dos soviéticos acabou, centenas de cubanos ficaram desesperados e começaram a abrir restaurantes clandestinos por conta própria em qualquer lugar", lembra Leticia, ela mesma uma "subversiva" que começou a ganhar dinheiro atraindo turistas a preços baixos ao mesmo beco onde tem o atual negócio, perto da catedral.

Preocupado com o desequilíbrio social que os embrionários negócios poderiam causar, o Estado colocou nas ruas fiscais para fechar as casas. Não conseguiu. Impôs, então, exigências e limitações que sufocaram o movimento. Os restaurantes não podiam ter empregados e estava proibido vender carne de gado e lagosta. Por último, cada restaurante só podia ter 12 assentos - daí uma piada recorrente na ilha até hoje, a de que um "paladar" daquela época nunca poderia receber a Última Ceia.

Leticia fechou o restaurante e por mais de uma década voltou a trabalhar com ferro. Até o ano passado, quando várias das proibições caíram. Atualmente, o número de "paladares" na ilha é de 1.438. "Acho que agora não há espaço para uma nova reviravolta", diz a Leticia, que tem dez funcionários, enquanto fecha a última conta - de US$ 18 - e pergunta ao cliente se o abacate com camarões - banhados em limão siciliano fresco - estavam saborosos.

Aventura

 

Enquanto nos ambientes sofisticados da capital os fiscais parecem orientados a deixar a palavra lucro assentar-se, no interior do país montar um negócio ainda é uma aventura para quem, por décadas, só pôde ser funcionário do Estado.

Yasmin López instalou um bar no estacionamento de casa, diante da praça central de Holguín, leste de Cuba. Enquanto no imponente casarão colonial vizinho um prato de arroz com frango custa US$ 15, ela cobra US$ 0,50 por um prato feito com os mesmo elementos. O lugar está repleto de cubanos, tão cheio que o fiscal do Estado que faz a segunda visita em dois dias precisa se sentar na cozinha, já dentro da casa.

"Foram duas multas, de US$ 10 e outra de US$ 18, ontem e hoje. Isso já eliminou meu lucro", conta Yasmin, que tem quatro empregados polivalentes (garçons-cozinheiros-faxineiros). "Mas não posso reclamar, antes não podíamos nem tentar", completa, apresentando a conta de US$ 1 (uma limonada custa US$ 0,50).

O perfil dos novos empreendedores cubanos é diverso. Leticia chegou à universidade. Yasmin terminou o secundário. E há gente como "Robertico", que chegou a ser ministro.

Dono do refinado bar Chaplin's, perto do cinema homônimo, no bairro Vedado, em Havana, Roberto Robaina - "Robertico", para Fidel Castro - era o chanceler cubano justamente durante o colapso soviético, ou "fim do período especial", como os cubanos chamam o tempo do apadrinhamento soviético. Robaina foi afastado do posto e do Partido Comunista, onde era a jovem estrela em ascensão. A acusação: promover-se pensando em um período pós-Castros.

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