Gael Gonzalez/Reuters-13/11/2010
Gael Gonzalez/Reuters-13/11/2010

Mídia adota regras para cobrir guerra das drogas no México

Cerca de 700 veículos mexicanos concordam com diretrizes para cobrir o conflito entre o Estado e o narcotráfico

Ken Ellingwood, Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

CIDADE DO MÉXICO

Muitas das principais empresas de mídia do México concordaram com as diretrizes - as primeiras a serem adotadas - para a cobertura da guerra contra as drogas, que aumentou drasticamente os perigos para os jornalistas.

O acordo, em dez pontos, assinado por mais de 700 agências de mídia de todo o país, estabelece que as organizações de notícias têm de encontrar maneiras para proteger seus jornalistas e evitar a glorificação de chefões do crime.

O acordo também exorta as organizações a se unirem contra as ameaças contra jornalistas, como a edição em conjunto de reportagens. Também devem ser adotados critérios, no caso de imagens violentas, como corpos decapitados, e os jornais devem oferecer mais contexto quando informarem casos de violência por causa das drogas.

A guerra contra as drogas, lançada pelo presidente mexicano, Felipe Calderón, no fim de 2006, deixou as organizações de notícias mexicanas numa posição difícil. Elas têm sido atacadas ou ameaçadas por gangues das drogas e acusadas pelo governo de fazer sensacionalismo de uma carnificina que já matou mais de 34 mil pessoas.

As diretrizes, porém, poderão ter pouca utilidade prática em zonas como o Estado de Tamaulipas, no norte, onde as gangues já amordaçaram a mídia noticiosa. Nesses lugares, muitas pessoas recorrem às redes sociais, como o Twitter, para trocar informações sobre tiroteios e outros incidentes. De acordo com a Comissão de Proteção de Jornalistas, com sede em Nova York, mais de 30 jornalistas foram mortos ou desapareceram no México desde que Calderón lançou um ataque contra as máfias da droga.

Várias agências decidiram não assinar o acordo, incluindo os jornais Reforma e La Jornada e a revista semanal Proceso. Jenaro Villamil, jornalista da revista Proceso, disse que esse acordo abre a porta para a censura e é uma tentativa dos gigantes da mídia para controlar a opinião pública. Mas grandes redes de TV, como Televisa e TV Azteca, e muitas empresas jornalísticas e de rádio, negaram que o acordo seja uma forma de autocensura.

Calderón aplaudiu o acordo, qualificando-o como expressão de "responsabilidade social" por parte da imprensa no México. Com base no acordo, as organizações de notícias não devem abordar as "estratégias de terror" dos grupos criminosos, retratando os traficantes como heróis ou publicando propaganda da máfia, como os banners instalados pelo narcotráfico, que frequentemente são exibidos na TV ou em fotos nos jornais. Uma outra diretriz estabelece que a mídia não deve tratar pessoas suspeitas como culpadas até seu julgamento.

Muitos jornalistas no México têm se recusado a assinar reportagens para evitar represálias. Os jornalistas colombianos, por exemplo, procuraram se proteger contra represálias dos cartéis da droga no país publicando artigos em conjunto, ideia que agora foi inserida no acordo mexicano.

Logo após o anúncio do acordo, criminosos furtaram o corpo de um animador da TV mexicana que havia sido executado e abandonado no norte do México, e ameaçaram jornalistas que faziam a cobertura do crime. Policiais encontraram o apresentador José Luis Cerda, da Televisa local, com um tiro na cabeça e as mãos atadas, jogado ao lado de uma rodovia na cidade de Monterrey, norte do país.

PARA LEMBRAR

Em setembro de 2010, o jornal El Diario, de Ciudad Juárez, publicou editorial pedindo uma trégua aos grupos criminosos que disputam o controle do tráfico de drogas na região. Em um tom entre o desespero e a ironia, o texto sugeria aos traficantes que explicassem quais informações poderiam ser publicadas. Em troca, pedia que seus jornalistas não fossem mais assassinados.

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