Mídia hondurenha ignora movimento pró-Zelaya

Jornais, tevês e rádios têm criado realidade paralela, apresentando um país em completa tranquilidade

Roberto Lameirinhas, O Estadao de S.Paulo

25 de julho de 2009 | 00h00

Jornais e emissoras de TV de Honduras praticamente não informam sobre a situação tensa na fronteira com a Nicarágua. Noticiam apenas o movimento das "forças de ordem" para garantir a "segurança de todos os hondurenhos" da região e sobre "agitadores estrangeiros" que reúnem "vândalos" para atentar contra o Estado hondurenho. Membros do governo do presidente deposto, Manuel Zelaya, não têm voz, exceto por frases fora de contexto exibidas em spots curtos para vinculá-los ao presidente venezuelano, Hugo Chávez."Vivemos um período complicado. É preciso ter responsabilidade na missão de informar a população", disse ao Estado Erwin Damaso, repórter do Canal 5, estatal e francamente a favor do presidente de facto, Roberto Micheletti. "Temos de ter cuidado para não passar a impressão de que um pequeno grupo de agitadores representa a maioria da população."Na verdade, a mídia hondurenha vem criando uma realidade paralela, ignorando o movimento pró-Zelaya e a tensão latente, apresentando um país que vive em completa tranquilidade, exceto pelas pouco numerosas hordas de subversivos patrocinadas por governos estrangeiros, como o de Chávez e o do presidente nicaraguense, Daniel Ortega.Nos dias que se seguiram ao golpe do dia 28, emissoras de rádio e TV, assim como os jornais de Tegucigalpa, apressaram-se em divulgar a versão do governo de facto de que a substituição do presidente tinha obedecido estritamente a Constituição, enquanto âncoras e comentaristas desafiavam a comunidade internacional que insistia em condenar a deposição de Zelaya. A CNN em espanhol chegou a ser retirada do ar pelas operadoras de TV a cabo, assim como a emissora chavista Telesul. A única emissora de rádio que se posicionou contra o golpe foi a Rádio Globo, que assumiu - também de forma apaixonada - a defesa de Zelaya."As grandes emissoras e os principais jornais do país tomaram para si a tarefa de tergiversar e garantir o apoio popular ao golpe. Não há debate de ideias, só a intensa propaganda pró-Micheletti", afirma um dos editores da Rádio Globo, Hugo Escobar.O Canal 5 exibe, a cada dez minutos, declarações antigas de Zelaya comparando-as a discursos de Chávez. Faz paralelos entre a retórica dos dois presidentes sobre temas como reeleição, reformas constitucionais, socialismo e liberdade de imprensa. Entre um e outro intervalo de propaganda, mostra Micheletti distribuindo cheques para a antecipação do pagamento de salários de funcionários públicos, anunciando aumento de soldos para soldados e policiais e acusando Zelaya de ter deixado uma "herança maldita" em termos de economia e segurança pública. As "marchas pela paz e dignidade", pró-Micheletti - como a que ocorreu ontem em San Pedro Sula - têm transmissão praticamente ao vivo nas TVs.

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