Mídia indiana é criticada por cobertura de ataques a Mumbai

A cobertura ininterrupta dos ataques a Mumbai deixou os indianos nervosos, e analistas disseram nesta sexta-feira que ela também incitou a opinião pública contra o Paquistão e pode moldar a política do país antes das eleições de maio. Psiquiatras na capital financeira da Índia têm reportado um aumento dos casos de crises de pânico e de insônia após os ataques da semana passada, transmitidos ao vivo pela televisão para milhões de casas. O atentado praticado por militantes islâmicos matou 171 pessoas. "Não houve uma preocupação com o equilíbrio ou com uma racionalidade. A cobertura foi tão patriótica e nacionalista que eles influenciaram a opinião pública sobre o Paquistão de forma irreversível", disse Atul Phadnis, executivo-chefe da consultoria Media e2e. Nos dias após os ataques, a bandeira indiana tem sido usada muitas vezes como cenário de fundo para as transmissões televisivas, com mensagens de texto de espectadores expressando raiva contra políticos e contra o Paquistão. O Paquistão condenou os ataques e negou qualquer envolvimento estatal, além de prometer ajuda às investigações indianas. Um grande protesto na quarta-feira em Mumbai, organizado por mensagens de texto, pela rede social Facebook e pelo rádio, foi prova da influência crescente da mídia sobre a opinião pública, disse B. Manjula, presidente do Centro de Estudos sobre Mídia e Cultura do Instituto Tata de Ciências Sociais. "Todos estão sendo levados a crer que, com uma vela acesa ou com um pôster, é possível cumprir com seu papel de cidadão responsável, sem questionar à opinião de quem eles estão apelando... Essas ações só servem para grandes imagens na TV", disse. Há mais de 60 canais de notícias em inglês e em línguas regionais que disputam a atenção de 80 milhões de lares indianos. A maioria deles foi lançada nos últimos três anos, quando o crescimento da economia ajudou a puxar para cima as receitas publicitárias. Mas a competição ferrenha também significa que jornalistas menos experientes foram colocados no mercado, disse Manjula. "Essa é uma questão complexa, com várias dimensões. Simplesmente reduzir a 'políticos são vilões' e 'Paquistão é o inimigo' sem um debate é uma profunda falha da mídia, mas isso influencia a opinião pública." Do outro lado da fronteira, a mídia paquistanesa condenou a pressa com que a Índia culpou o Paquistão pelo atentado, mas não está pedindo ao governo que tome uma atitude em particular. (Reportagem adicional de Robert Birsel em Islamabad)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.