Migração de crimes ligados ao tráfico desafia o México

Presidente eleito em uma semana enfrentará expansão de mortes em áreas industriais, como Monterrey, e turísticas, como Acapulco

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL, CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h04

O candidato que em uma semana os mexicanos escolherão para suceder Felipe Calderón herdará um saldo de 47,5 mil mortes relacionadas às drogas e um desafio: a violência ligada ao narcotráfico está em mutação. Diminui em cidades da fronteira com os EUA, como Ciudad Juárez e Tijuana. Sobe em polos turísticos, como Acapulco, e econômicos, como Monterrey e Veracruz.

O fenômeno é efeito colateral da ofensiva do governo. O ataque à cúpula dos cartéis provocou deserção em massa de comandantes médios. Eles criaram "empresas menores", cuja receita não vem só da venda de drogas.

"Há uma transição da violência dos grandes cartéis para as máfias locais. Os Zetas e Sinaloa dominam o tráfico internacional. O cenário piorou porque centenas de outros grupos se dedicam a tráfico de pessoas, sequestros, roubo de carros e postos de gasolina e, principalmente, à extorsão e à venda de proteção", afirma o cientista político Eduardo Guerrero, uma das maiores referências mexicanas em segurança.

O desafio de Enrique Peña Nieto (PRI), favorito segundo todas pesquisas, López Obrador (PRD), candidato de esquerda que tem ganhado espaço, e Josefina Vásquez Mota (PAN), governista em descenso, é a pulverização do crime organizado.

Para os novos grupos, não basta eliminar criminosos locais para dominar uma região. É fundamental fazê-lo com estilo. Decapitações, mensagens, flores ou esquartejamentos são marcas. "Dois ou três meses depois desta propaganda, transmitida pela imprensa, começa a extorsão. Chegam a cobrar US$ 150 mil por mês dos cassinos de Monterrey. Um pequeno restaurante em Acapulco paga US$ 2 mil. Nem vendedores de cachorro-quente escapam", diz Guerrero.

Os Estados onde estão Monterrey e Acapulco têm um perfil: são os únicos com mais de mil cadáveres produzidos pelo narcotráfico ao ano e tendência de alta. Em Nuevo León, cuja capital é Monterrey (1,1 milhão de habitantes, principal centro industrial atrás da Cidade do México), a matança ligada às drogas cresceu 193% em 2011. Consequência do rompimento em 2010 entre o Cartel do Golfo e Os Zetas (antes o braço armado do primeiro).

Em Guerrero, cuja principal cidade é Acapulco (600 mil habitantes, balneário preferido dos moradores da capital), o índice subiu 56%. Neste caso, houve uma fragmentação do Cartel Beltrán Leyva, após a prisão de seus líderes em 2010.

Em Veracruz, Estado do principal porto mexicano, as mortes associadas ao tráfico ficaram abaixo de 500 em 2011, mas chama atenção a alta: 573% em um ano. Há dez dias, o repórter policial Víctor Báez virou parte dos números com que relatava esta ascensão. Tornou-se o nono jornalista assassinado no Estado este ano. Uma mensagem o corpo dizia que foi executado por "bancar o esperto.

Embora o número de mortes no país esteja quase estável - 22 mil em 2011 contra 21 mil em 2010 - Sergio Aguayo, estudioso da violência mexicana há 30 anos, está pessimista. Primeiro, porque a pulverização do crime organizado tende a aproveitar a fragilidade das polícias locais - o nível dos agentes federais melhorou, já que o governo aumentou em 75% o gasto no setor desde 2006 (mais informações na página A17).

Segundo, pelo peso dado ao tema pelos candidatos até agora, a uma semana da votação - não há segundo turno no México. "O poeta Javier Sicilia os repreendeu publicamente pelo silêncio sobre as vítimas da violência. Prometeram mudar de atitude, mas não o fizeram", diz Aguayo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.