Nilzete Franco/Especial para o Estado
Nilzete Franco/Especial para o Estado

Migração de venezuelanas aumenta tráfico de mulheres na fronteira com o Brasil

Em Roraima, algumas imigrantes venezuelanas são vítimas de tráfico sexual com promessas de emprego e comida; casos aumentaram em 30% desde o começo do ano, segundo a Polícia Civil

Cyneida Correia, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2019 | 05h00

BOA VISTA - Duas mulheres de origem venezuelana, uma de 40 e outra de 20 anos, registraram na Polícia Civil de Roraima que foram vítimas de tráfico internacional de pessoas. Elas contaram que haviam sido recrutadas na Venezuela por um comerciante brasileiro e que, desde que chegaram ao Brasil, em fevereiro deste ano, foram obrigadas a se prostituir para sobreviver. As venezuelanas conseguiram fugir e pedir ajuda, e contaram que outra jovem do mesmo país também era mantida em cárcere privado.

“Ele ofereceu emprego e garantiu que íamos ter onde viver e comer bem, e ainda ajudar nossas famílias, que ficaram na Venezuela. Mas, quando chegamos, nos disse que íamos nos prostituir e que o lucro era dele para pagar nossa viagem, alimentação, moradia e transporte. Diariamente, éramos obrigadas a prestar contas e ameaçadas”, revelou a mais jovem. 

Outro dos casos investigados pelo Núcleo de Desaparecidos da Polícia é de uma mãe venezuelana que suspeita de que a filha tenha sido vítima do tráfico de mulheres. Neste caso, a jovem que saiu para ir à escola ainda não foi encontrada. Casos como o dessas imigrantes têm se tornado mais frequentes em Roraima, estado que fica na fronteira do Brasil com a Venezuela e que já recebeu mais de 150 mil pessoas após a crise se instalar no país vizinho.

Somente a Polícia Civil já registrou um aumento de mais de 30% nos casos nos seis primeiros meses deste ano. Nos últimos três anos foram registrados nove boletins de ocorrência de tráfico de pessoas, a maioria em 2019. Do total, mais de 50% das vítimas eram venezuelanas.

O delegado Geral Herbert Amorim explicou que os números são bem maiores, pois o banco de dados está incompleto, sem informação de nacionalidade. “Esses são apenas os números de casos comprovados. Temos vários registros de suspeitas de tráfico de mulheres, mas sem o filtro da nacionalidade. Estamos trabalhando com as delegacias e junto ao SINESP para melhorar esse cadastro”, explicou.

A Polícia Federal em Roraima (PF/RR), responsáveis por crimes transnacionais, deflagrou em anos anteriores várias operações para desarticular esquema de tráfico internacional de mulheres venezuelanas e guianenses para o Brasil com a finalidade de exploração sexual. A maioria dos endereços investigados e dos mandados de prisão cumpridos foram no município de Pacaraima, no limite da fronteira.

As investigações apontaram que venezuelanas estariam se prostituindo e recebendo agenciamento, facilitação e/ou sendo alojadas pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais, inclusive propiciando lucro aos investigados com a atividade de prostituição.  

O Estado procurou a superintendência da Polícia Federal em Roraima para mais informações, mas não obteve respostas.

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