Migração mudou perfil de Xinjiang

Shi Yan Wen tinha 24 anos em 1957, quando deixou sua vila natal na Província de Jiangsu e migrou para Xinjiang, no extremo o oposto da China, em uma viagem de caminhão que na época demorava 15 dias. Como milhares de chineses han, Wang atendeu à ordem do Partido Comunista de ajudar a "reconstruir" o país depois do fim da guerra civil, em 1949, e mudou-se para a região que nos anos 50 era habitada quase exclusivamente por uigures e outros grupos muçulmanos.Os hans construíram estradas, ferrovias, usinas de eletricidade e se consideram os responsáveis pelo desenvolvimento econômico e a integração da antes isolada região ao restante da China. "O país precisava de muitos chineses hans para construir Xinjiang. Se não fossem os hans, Xinjiang não seria tão desenvolvida como hoje. Os uigures não conseguiriam fazer isso sozinhos", disse Shi Yan Wen ao Estado na sexta-feira no bairro chamado "Mercado de Cavalos", onde vivem hans, uigures e huis, que são os hans muçulmanos.ORIGEM A política de estímulo à migração está na origem do conflito étnico que explodiu com os ataques de uigures aos chineses hans no dia 5.As agressões e os choques com a polícia provocaram a morte de 184 pessoas, deixaram pelo menos 1.000 feridos e mais 1.400 detidos.No início dos anos 50, a população de chineses hans em Xinjiang era de 6% e a de uigures, 74%.O restante era formado por outros grupos étnicos da região. Em 1964, o porcentual de hans havia saltado para 32%, de acordo com o censo chinês, no maior aumento proporcional registrado desde a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949.A participação de hans na população de Xinjiang chegou ao pico de 41% em 2000 e caiu para 39% em 2007, quando o porcentual de uigures na província era de 46%.De acordo com os "pioneiros", a relação entre imigrantes hans e uigures costumava ser amistosa."Nós visitávamos os uigures no Ramadã e eles nos visitavam no Ano Novo chinês", lembrou Wang Cao Tao, de 78 anos, que migrou da Província de Shangdong para Xinjiang em 1957.As famílias dos dois chineses hans já estão na terceira geração em Urumqi, capital da província, e eles se consideram tão locais quanto os uigures que habitavam a região originalmente.Wang Cao Tao tem quatro filhos e três netos, todos vivendo na cidade. A família tem um pequeno mercado ao lado de um restaurante uigur e de um café de propriedade do norte-americano Paul Van Allen, que vive em Urumqi há sete anos.TENSÃO PERMANENTEDe acordo com Allen, um dos filhos de Wang Cao Tao evitou que o restaurante uigur fosse atacado na terça-feira por um grupo de chineses hans que saiu às ruas para se vingar dos conflitos de domingo."Quando os agressores chegaram, ele disse que era o dono do lugar", disse o norte-americano ao Estado.O taxista Feng Xin Di, de 43 anos, nasceu em Urumqi, filho de imigrantes que se mudaram da Província de Shanxi para Xinjiang nos anos 50.Seu pai trabalhava na construção de estradas e sua mãe vendia verduras na rua. "Por que vieram? Essa é uma só nação e viver aqui ou lá não faz diferença", observou.Os chineses han se concentram em Urumqi, no norte da província, onde representam 75% dos 2,3 milhões de habitantes. A cidade muçulmana por excelência é Kashgar, a maior de Xinjiang, com 3,5 milhões de moradores, 89% dos quais uigures. Shi Yan Wen rejeita as acusações de que os uigures são discriminados e ressalta que eles são beneficiados por políticas de ação afirmativa do governo chinês, entre as quais estão a exigência de menor pontuação nos exames de entrada na universidade e a não-aplicação da política de filho único imposta aos hans.

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