Divulgação / Médicos Sem Fronteiras
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Migração para UE cai, mas mortes aumentam

Fluxo para Europa foi reduzido em dois terços; número de vítimas subiu 35%

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

07 Janeiro 2017 | 08h20

GENEBRA - O ano de 2016 bateu o recorde de mortes de imigrantes e refugiados no Mar Mediterrâneo, com um salto de 35% em relação a 2015, apesar de o número de imigrantes que chegaram à Europa pelo mar ter diminuído em dois terços em razão do acordo feito entre a União Europeia e a Turquia. 

Dados divulgados ontem pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) mostram que mais de 5 mil pessoas morreram tentando chegar à Europa em barcos frágeis arranjados por grupos criminosos. Por dia, houve uma média de 14 mortes.

Para especialistas, o mais surpreendente é o aumento do número de vítimas mesmo com a queda no fluxo de estrangeiros tomando a rota para a Europa. No total, 2016 registrou 363 mil pessoas cruzando o mar. Em 2015, o número havia superado a marca de 1 milhão. 

Segundo a Frontex, a agência de fronteiras do bloco europeu, a queda no fluxo ocorreu principalmente em razão do acordo de março de 2016, entre Bruxelas e Ancara, bloqueando a passagem entre a Turquia e as ilhas gregas. 

O acordo concede à Turquia bilhões de euros em ajuda desde que o país mantenha os refugiados em seu território e impeça traficantes de pessoas de transportá-las para a Grécia pelo Mar Egeu. Ainda assim, 173 mil pessoas tomaram essa rota no ano passado. 

Com o caminho grego mais restrito, registrou-se um salto no fluxo de pessoas usando a Líbia e o Egito como ponto de partida para uma travessia mais perigosa até o sul da Itália. Em 2015, 153 mil pessoas haviam tomado essa rota. Em 2016, esse número chegou a 181 mil, o mais alto já registrado pelas autoridades italianas.

Parte da explicação para o salto no número de mortes está justamente relacionado a esse “novo caminho”. Outro problema seriam as táticas usadas por grupos criminosos. Sabendo do compromisso dos europeus em resgatar os náufragos, barcos ainda mais frágeis são lançados ao mar na esperança de que sejam rapidamente recolhidos. Muitos não são identificados ou o resgate não ocorre com a velocidade necessária. 

“Ainda que elevados, esses números não refletem a realidade e estão subestimados”, disse o porta-voz da OIM, Joel Millman, que afirma não ter condições de saber qual é o real número de mortos. 

Balanço. Contando todas as regiões de fronteira do mundo, 2016 registrou 7,4 mil mortes de imigrantes tentando fugir de seus países. Apenas na África, foram cerca de 1,1 mil vítimas, ao passo que na fronteira entre o México e os Estados Unidos houve 432 mortes, além de outros 174 na América Central.

Os dados para o Mediterrâneo são os que mais cresceram e revelam, segundo organismos internacionais, que a política de migração da Europa não está dando resultado. Em 2015, foram 3,7 mil mortos, o que já havia sido um recorde. Agora, o número voltou a atingir marcas inéditas. Em apenas três anos da atual crise de refugiados, 18 mil estrangeiros já morreram tentando cruzar fronteiras. Em relação ao Mediterrâneo, 4,2 mil dos 5 mil mortos foram vítimas de afogamento. Outros ainda perderam a vida por sufocamento, hipotermia ou desidratação. 

Política. “A frustração só vai acabar quando governos europeus entrarem em acordo sobre como gerenciar a migração”, alertou William Swing, diretor-geral da OIM. “Migrantes e refugiados não estão atravessando o mar para serem resgatados. Estão fazendo a travessia porque sabem que, onde estão, não terão uma vida”, acrescentou. 

Na avaliação de Swing, não adiantará a Europa apenas aumentar a capacidade de resgatar náufragos. A solução teria de passar por caminhos legais de migração e acordos com países de origem. Cerca de 181 mil imigrantes chegaram à Itália em 2016 vindos da África, por meio da chamada rota central do Mediterrâneo. Esse é o maior número registrado e é 20% maior do que no ano anterior, segundo a Frontex.

Desde 2010, a Itália aumentou em dez vezes o número de resgates em sua costa. Nigerianos seriam os principais migrantes nessa rota, que também conta com cidadãos de Eritreia, Guiné, Costa do Marfim e Gâmbia. No total, contando imigrantes e refugiados que tentam entrar na Europa por aeroportos e atravessando fronteiras secas, a Frontex estima que 503 mil estrangeiros em situação irregular foram detectados em portas de entrada do bloco europeu em 2016.

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