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Milhares de civis fogem de zona de guerra no Paquistão

Taleban tenta impedir fuga de civis das áreas atacadas pelo Exército; ONU alerta para risco de crise humanitária

Agências internacionais,

07 de maio de 2009 | 08h56

Milhares de paquistaneses romperam os bloqueios do Taleban em estradas e fugiram do Vale do Swat, no noroeste, enquanto o Exército aumentou a ofensiva por terra e ar contra os extremistas islâmicos que controlam a região. A ONU alertou para o risco da situação dos refugiados no país se transformar em uma crise humanitária.

 

A violência desestabilizou essa área do país, localizada na fronteira com o Afeganistão, no momento em que o presidente paquistanês pediu ao governo americano mais ajuda para reduzir a extensão do território nas mãos da insurgência, que já está localizada a cerca de 100 quilômetros da capital, Islamabad. O governo estima que mais de meio milhão de paquistaneses foram desalojados pelos combates em outras regiões do noroeste do país e vivem em acampamentos temporários ou com familiares, o que acrescenta aos problemas da segurança, economia e política no país uma enorme crise humanitária

 

Segundo o jornal The Guardian, um oficial da ONU no país afirmou que cerca de 60 mil desalojados estão inscritos apenas no campo na cidade de Mardan. O número é apenas uma fração do total de famílias em busca de ajuda, já que muitos ainda esperam pelo registro para receber assistência por abrigo e comida. "A comunidade internacional precisa perceber que isso está se transformando em uma das maiores crises de deslocados do mundo e lidar com isso", afirmou Killian Kleinschmidt, vice representante da agência de refugiados da ONU no Paquistão. "Precisamos de dinheiro agora para o que pode acontecer no verão".

 

O governo dos EUA se mostrou particularmente preocupado com o aumento da atividade militante no país, já que os soldados americanos estão em confronto com uma insurgência de violência crescente no Afeganistão e que conta com o respaldo de enclaves extremistas na fronteira entre os dois países. As autoridades temem ainda um êxodo em massa de habitantes do Vale do Swat, onde acredita-se que o Taleban e a Al-Qaeda estão operando na região após terem sido combatidos do Afeganistão. Lutar contra a violência nesta delicada região tem sido uma das prioridades de Obama, que tenta estabilizar o território afegão.

 

Militantes bloquearam as estradas de Mingora, a principal cidade do Vale do Swat, com pedras e árvores para impedir que os civis aterrorizados deixassem a região em que o Exército está promovendo os ataques aéreos. Um repórter da Associated Press afirmou ter visto centenas de homens, mulheres e crianças - a maior parte em carros, ônibus e tratores, mas algumas delas a pé - deixando a cidade em busca de segurança.

 

"Não posso ficar aqui enquanto bombas caem por toda parte", afirmou Altaf Hussain, um homem de 41 anos que deixava Mingora com a mulher e os quatro filhos em uma motocicleta. A maioria afirma que está a caminho dos campos montados por autoridades paquistanesas e pela ONU. Entretanto, muitos moradores afirmaram que o Taleban tentou impedir a fuga dos civis. Ayaz Khan contou que tentou sair com sua família de carro e encontrou obstáculos nas estradas, tendo que voltar para casa. "Estou preocupado com a segurança da minha família", afirmou.

 

Encontro nos EUA

 

Diante de relatos de que a Casa Branca estaria insatisfeita com o governo do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, considerado "corrupto", e de Asif Ali Zardari, "fraco contra o Taleban", Obama reafirmou o apoio dos EUA aos dois presidentes. "Os EUA comprometeram-se em derrotar a Al-Qaeda, mas também se comprometem em apoiar os governos democraticamente eleitos tanto do Afeganistão quanto do Paquistão", disse o presidente americano, depois de se encontrar com os dois líderes.

 

Tanto Karzai quanto Zardari vieram a Washington de pires na mão. O Paquistão quer mais dinheiro para sua polícia e Exército e mais aviões não tripulados, que vêm atacando líderes do Taleban nas áreas tribais do país. Mas o Congresso está dificultando - nesta semana, o congressista David Obey propôs o estabelecimento de metas para liberar o dinheiro.

 

A Casa Branca ficou irritada com os acordos que Zardari fechou com o Taleban no Vale do Swat - que resultaram na ocupação do vale pelos insurgentes e na ampliação de sua presença no país, chegando a 100 quilômetros da capital, Islamabad. Para assessores de Obama, o grande problema é que o foco do Paquistão está na luta contra a Índia e resiste a enfrentar os guerrilheiros Taleban, considerados "um dos nossos". Outro grande obstáculo é a fronteira porosa entre Afeganistão e Paquistão - os taleban circulam livremente entre os dois países, e o Paquistão funciona como uma fonte inesgotável e esconderijo seguro de guerrilheiros. O Paquistão não permite que os americanos entrem no país para lutar contra os guerrilheiros.

 

(Com Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo)

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