REUTERS/Edgard Garrido
REUTERS/Edgard Garrido

Milhares de fiéis esperam pelo papa Francisco nos territórios mapuche

Na cidade de Temuco, esperança dos peregrinos é que mensagem do pontífice da Igreja Católica ajude a levar paz para região marcada por disputas de terra; depois de 'missa da integração', líder religioso deve se reunir com grupo de indígenas

O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2018 | 09h44

TEMUCO, CHILE - Milhares de peregrinos lotam nesta quarta-feira, 17, a Base Aérea de Maquehue, na cidade chilena de Temuco, para escutar as palavras do papa Francisco. A esperança é que o discurso do pontífice da Igreja Católica ajude a "trazer paz" para esta área marcada por disputas de terra pelos indígenas mapuche.

No Chile, papa Francisco pede perdão às vítimas de abusos sexuais

Desde a meia-noite, milhares de fiéis iniciaram a vigília na base aérea, onde chegavam depois de percorrer um trajeto de três quilômetros de caminhada. Enrolados em mantas ou sacos de dormir, com toucas e jaquetas para suportar o frio da noite no sul do Chile, os peregrinos esperavam por horas pela missa de Francisco, segundo papa que visita a cidade depois de João Paulo II em 1987.

"Acredito que vale a pena (o sacrifício) porque a mensagem que precisamos há muito tempo da mensagem que trará o papa Francisco ao nosso país. Se passaram 30 anos desde a última visita (de um papa) e acredito que isso nos preencherá de paz, esperança e fé", disse Jessica Pinto, que viajou mais de três horas para poder ver Francisco.

"Me sinto muito bem porque é uma visita muito esperada. Espero que isso nos faça todos se sentirem muito bem como pessoas e nos unamos mais", disse ao lado dela o peregrino Francisco Vera. "Somos um país solidário, mas essa fé se perdeu e espero que com a visita do papa possamos retomá-la."

The Economist: Chilenos serão um público difícil para o papa

Francisco escolheu a cidade de Temuco (800 quilômetros ao sul de Santiago) para fazer contato direto com indígenas mapuches, a etnia mais importante do Chile, que denuncia discriminação, abusos e reivindica a restituição de territórios ancestrais hoje em mãos privadas.

A visita será curta. O papa deixará Santiago rumo a Temuco, em La Araucanía, onde oficiará a chamada "missa da integração dos povos" na Base Aérea de Maquehue. A expectativa é que reúna uma multidão tão grande quanto a de terça-feira na capital, que teve um público de 400 mil pessoas.

Depois da liturgia, o pontífice deve se reunir com um grupo de indígenas, cujas identidades ainda não foram reveladas pela organização do encontro. Na sequência, ele volta para Santiago, onde se reunirá com jovens e visitará a Universidade Católica da capital.

Tensões

"O programa da visita do Santo Padre reflete sua preocupação com uma zona que viveu tensões importantes, com a qual quer compartilhar uma mensagem de paz e para onde busca levar palavras de esperança que possibilitem o encontro entre as pessoas", disse recentemente o coordenador nacional da Comissão que organiza sua visita ao Chile, Fernando Ramos.

No entanto, parece ter-se propagado para La Araucanía a hostilidade contra a presença do papa por parte de grupos minoritários registrada em Santiago. Na madrugada passada, duas pequenas igrejas católicas foram atacadas em meio a um crescente clima de tensão pelas reivindicações de indígenas mapuches.

Mais três igrejas são alvo de ataques em visita do papa ao Chile

Em ataques simultâneos, as pequenas capelas situadas na periferia de Temuco ficaram completamente destruídas. Essas investidas se somam às sofridas por outras seis igrejas na capital com mensagens contrárias à visita do papa.

Os ataques incendiários são frequentes na região de La Araucanía. Nos últimos anos, foram mais de 100 atentados contra maquinário florestal e templos religiosos.

Antes da chegada dos conquistadores espanhóis no Chile, em 1541, os mapuches eram donos das terras que vão do rio Biobío a até cerca de 500 quilômetros mais ao sul.

Após sucessivos processos, os mapuches, que representam 7% da população, foram forçados a viver em pouco mais de 5% de seus antigos domínios.

Sem canais de negociação abertos, espera-se que a visita do papa à zona possa servir para aproximar posições nesse conflito de longa data. / AFP

Mais conteúdo sobre:
Chile [América do Sul] Papa Francisco

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.