Sergio Flores/ The Washington Post
Sergio Flores/ The Washington Post

Milhares de haitianos vivem embaixo de ponte no Texas após recorde de fluxo migratório

Em uma semana, aproximadamente 9 mil migrantes haitianos cruzaram para os EUA; crise registra maior fluxo de ilegais no país em 20 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 15h00

TEXAS - Milhares de migrantes haitianos que cruzaram o Rio Grande nos últimos dias estão dormindo em acampamentos montados embaixo de uma ponte no sul do Texas, o retrato de uma nova emergência humanitária e desafio logístico para agentes migratórios americanos. A fronteira sul dos Estados Unidos registrou o maior fluxo de imigrantes ilegais dos últimos 20 anos nesta semana, quando milhares de pessoas, a maioria delas haitianos vindos de países da América do Sul, incluindo o Brasil, atravessaram o Rio Grande, no trecho que separa as cidades de Del Rio, no Texas, e Ciudad Acuña, no Estado mexicano de Coahuila.

Autoridades do município texano estimam que mais de 10 mil migrantes se instalaram em um acampamento improvisado nos últimos dias, de onde aguardam resposta sobre seus pedidos de asilo, enquanto mais pessoas devem chegar nos próximos dias. Nesta semana, ao menos 9 mi cruzaram a fronteira americana.

Os migrantes que chegam a Del Rio parecem fazer parte de uma onda migratória maior que se descolca em direção aos EUA, formada principalmente por haitianos, muitos dos quais foram acolhidos pelo Brasil e outras nações sul-americanas após o gigantesco terremoto de 2010. Mais de 29 mil haitianos chegaram aos EUA nos últimos 11 meses, segundo dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras americana (CPB), incluindo alguns de famílias de nacionalidades mistas, com crianças nascidas no Brasil, Chile e outros países vizinhos.

O Estadão noticiou em agosto que a reabertura de algumas fronteiras na América do Sul, após o aumento no ritmo de vacinação contra a covid-19 em diversos países, fez com que imigrantes que fogem de crises políticas e/ou econômicas em voltassem a tentar a travessia da América Central, em direção EUA. O movimento fez com que, pela primeira vez em décadas, o maior crescimento migratório com destino ao território americano não fosse apenas entre populações do triângulo norte da América Central (Guatemala, Honduras e El Salvador) e México. O resultado desse processo agora é visível nos acampamentos em Del Rio.

Temporário

A Patrulha de Fronteira dos EUA informou que mais de 9 mil migrantes estavam sendo mantidos em uma área temporária sob a Ponte Internacional Del Rio, enquanto os agentes trabalhavam para processar os pedidos de asilo. O acampamento temporário cresceu com uma velocidade impressionante nos últimos dias. Mais agentes estão sendo enviados para a região.

O prefeito de Del Rio, Bruno Lozano, descreveu as condições sob a ponte como miseráveis, afirmando que mais se assemelhavam a uma favela, com pouco acesso a água potável e alimentos e apenas alguns poucos banheiros quiímicos. "São 9 mil pessoas ansiosas e estressadas", disse Lozano na quinta-feira, 16, ao pedir ajuda federal.

Água potável, toalhas e outros itens básicos estão sendo distribuídos aos migrantes no local, de acordo com o CPB, mas funcionários que trabalham diretamente na região afirmam que as condições sanitárias são precárias, com apenas 20 banheiros disponíveis. Famílias com crianças pequenas estão recebendo prioridade de remoção da área da ponte.

Del Rio é uma cidade de 35 mil habitantes localizada às margens do Rio Grande e distante cerca de 240 km de San Antonio. O município, cercado por ranchos, hectares de arbustos espinhosos e enormes árvores de algaroba, tornou-se o centro deste drama humanitário após virar a rota preferencial de migrantes de países como Haiti, Venezuela e Cuba, que relatam a fama da rota como "mais segura" do que outros pontos da fronteira.

A pressão crescente também é um desafio para o governo de Joe Biden, que prometeu rever a política para imigrantes promovida por Donald Trump. No caso específico do Haiti, Biden reduziu os voos de deportação para o país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho, e do terremoto de magnitude 7,2 em 14 de agosto que matou mais de 2 mil pessoas. Também foi estendido um status de proteção temporária para haitianos, medida que permite que naturais do país que vivem nos EUA sem status legal possam se qualificar para residência provisória e evitem a deportação.

Mas a cena de densas multidões dormindo na terra ou andando em um calor escaldante, em meio a condições de saneamento em deterioração - foi condenado por autoridades locais. O governador do Tesxas, Greg Abbott, ordenou que a polícia estadual e a Guarda Nacional ajudassem os agentes de fronteira em Del Rio, dizendo que a resposta federal não foi suficiente para conter o aumento das travessias.

"O governo Biden está em completa desordem e está lidando com a crise de fronteira tão mal quanto a retirada do Afeganistão", disse.

Polícias de fronteira, grupos criminosos e selva são obstáculos para migrantes

Apesar dos perigos envolvidos na travessia do Rio Grande e das condições precárias de alojamento e saneamento em Del Rio, o estágio atual é apenas uma pequena fração do périplo percorrido por parte dos migrantes que buscam o sonho americano. Grupos que partiram da América do Sul precisaram cruzar as selvas de Darien Gap, no Panamá, desviar de campos de migrantes e gangues criminosas na América Central, e escapar de guardas e tropas de fronteira ao longo das rodovias do sul do México.

"Vejo pessoas corajosas que, em vez de cair na armadilha do conformismo, optam por encontrar uma vida melhor", disse Wendy Guillaumetre, 31, que passou quatro anos no Chile antes de partir com sua esposa e filha de 3 anos para os Estados Unidos.

Para muitos dos migrantes que deixam a América do Sul, a rota passa pelo Darien Gap, a densa selva repleta de cobras e rios traiçoeiros que separa a Colômbia do Panamá, cujos caminhos enlameados são usados há muito tempo por contrabandistas. Apenas neste ano, a autoridades da imigração panamenha diz que o número de pessoas que cruzam a área atingiu níveis recordes, com 70 mil migrantes se registrando em abrigos do país após fazer o perigoso trajeto.

A maioria das pessoas que atualmente cruzam o Darien Gap são haitianos que viviam no Brasil e no Chile e perderam seus trabalhos devido à pandemia do novo coronavírus. Com requisitos de visto quase impossíveis de serem cumpridos e pelo custo dos voos para Panamá, México ou Estados Unidos, a única alternativa para muitos é fazer a jornada a pé.

O perigo, contudo, não vem apenas pela selva. Após chegarem ao Panamá, os migrantes que saem da América do Sul precisam percorrer pelo menos quatro países da América Central, incluindo El Salvador ou Honduras, conhecidos pela presença de grandes grupos criminosos, até chegarem ao México, onde o trecho final da viagem começa.

Além dos riscos envolvendo a travessia ilegal - que muitas vezes inclui o pagamento de "coyotes", contrabandistas de mexicanos que oferecem como serviço a passagem da fronteira -, certas vezes a barreira vem das autoridades mexicanas, criticadas recorrentemente pelo governo americano por fazer "vista grossa" para o fluxo migratório.

Na quarta-feira, 15, cerca de 500 migrantes de diferentes nacionalidades - como Haiti, Cuba, Honduras e El Salvador - protestaram na cidade mexicana de Tapachula, na fronteira com a Guatemala, onde bloquearam ruas e a principal rodovia da região. A exigência dos manifestantes era de que as autoridades liberassem a passagem em direção aos EUA, após várias caravanas terem sido desmontadas nas últimas semanas.

Entre janeiro a agosto, cerca de 147 mil migrantes sem documentação foram identificados no México - o triplo do que se viu em 2020 - enquanto um número recorde de 212 mil migrantes foram detidos somente em julho pelo Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP). / W. POST, NYT, AP e REUTERS

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