Esteban Biba/EFE
Esteban Biba/EFE

Guatemala dispersa caravana de imigrantes e libera estrada bloqueada

Milhares de migrantes viajam a pé de Honduras aos Estados Unidos, na esperança de que o governo do presidente eleito Joe Biden os deixe entrar

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 09h00
Atualizado 18 de janeiro de 2021 | 17h58

VADO HONDO, GUATEMALA - A Polícia da Guatemala dispersou nesta segunda-feira, 18, uma caravana com milhares de imigrantes de Honduras, bloqueados no fim de semana em uma rodovia na cidade de Vado Hondo (leste) e acabou afugentando-os com bombas de gás lacrimogêneo. A estrada onde os migrantes estiveram desde o sábado foi liberada para o avanço do transporte de cargas, cujas mercadorias corriam o risco de estragar.

O contingente policial avançou fortemente sobre a multidão, fazendo barulho ao bater com os cassetetes nos escudos, fazendo com que cerca de 4 mil migrantes recuassem e outros fugissem, espalhando-se pela cidade, mas ainda em território guatemalteco. 

Durante a fuga, vários migrantes tentaram atirar pedras nos policiais, que responderam disparando gás lacrimogêneo para continuar a afastá-los e empurrá-los em direção à fronteira com Honduras, localizada a cerca de 50 quilômetros de distância.

A operação policial fez com que muitas famílias fugissem, incluindo mães com filhos pequenos. "Vou com meu filho, em Honduras não tenho onde morar", disse uma mulher ao canal Guatevisión após a debandada, recuperando o fôlego perto de um poste. “Se tivéssemos dinheiro não estaríamos indo para o norte (EUA). Eles nos tratam como cachorros, não tem que ser assim”, disse outra mulher, que levava consigo duas meninas, segurando uma em cada mão.

Milhares de migrantes que viajam a pé de Honduras aos Estados Unidos, na esperança de que o governo do presidente eleito Joe Biden os deixe entrar. Na Guatemala, eles foram barrados por policiais e militares, enquanto centenas deles já foram devolvidos à fronteira.

Após entrar na Guatemala entre sexta-feira e sábado, os imigrantes passaram a noite dispersos no Departamento de Chiquimula, fronteira com Honduras, muitos à beira da estrada, após um dia marcado por intensos enfrentamentos com as forças de segurança, e onde avançaram apenas 50 km.

A caravana tenta chegar ao México, que já enviou policiais para sua fronteira. Cerca de 9 mil imigrantes tentaram entrar inicialmente no país, segundo a estimativa preliminar das autoridades. 

Mais cedo, havia uma decisão de não enfrentar os imigrantes, segundo um policial, por se constatar que no grupo havia muitas famílias com menores de idade.

Os últimos imigrantes do grupo atravessaram a fronteira de forma ordenada e sem muita resistência, e como o restante, ignoraram a exigência de apresentação de documentos e um teste negativo para covid-19.

A Guatemala enviou caminhões e ônibus para que os imigrantes retornassem para Honduras e, segundo o último relatório da Migração, cerca de mil deles já foram devolvidos à fronteira, entre eles 163 crianças.

A crise após a passagem de dois furacões em novembro e a falta de empregos devido à pandemia agravaram os problemas econômicos do país, que se somaram à violência associada às gangues e ao tráfico de drogas.

"Meu sonho é chegar aos Estados Unidos, comprar minha casinha porque estou farto de viver de aluguel e de trabalhar para outras pessoas", disse Melvin Fernández, um motorista de táxi da cidade portuária de La Ceiba, que viaja com sua mulher e três filhos de 10, 15 e 22 anos, ao lado da multidão.

Diante da situação, o governo guatemalteco lamentou a "transgressão" de sua soberania nacional. "Alguns grupos infringiram os regulamentos atuais e conseguiram passar para nosso território, violando as disposições legais."

Em nota, pediu a Honduras que "contenha a saída em massa de seus habitantes, por meio de ações preventivas de caráter permanente", apelo que já havia feito em outubro, quando outra caravana de cerca de 4 mil migrantes foi dissolvida na Guatemala.

Esperança em Biden

Após entrar no território da Guatemala, alguns grupos foram em busca de instituições de apoio aos migrantes e outros receberam suporte da Cruz Vermelha e do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). "Vamos com o coração partido. No meu caso, deixo minha família. Meu marido e meus três filhos ficam", disse Jessenia Ramírez, de 36 anos. "Procuramos um futuro melhor, um trabalho para poder enviar alguns centavos" a Honduras, acrescentou.

A maioria vai a pé e alguns pedem carona. No caminho, ainda encontrarão vários postos de controle da polícia na Guatemala antes de chegar à fronteira com o México, que já anunciou que "não permitirá a entrada irregular de caravanas de migrantes" e posicionou 500 agentes em Chiapas e Tabasco, Estados da fronteira.

Muitos participantes desta caravana estão convencidos de que o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, que toma posse na quarta-feira, será mais flexível do que seu antecessor, Donald Trump, com as regras de imigração. "Biden deveria dar àqueles que já estão lá uma chance de trabalhar", disse Ramírez.

Mas Washington já descartou a possibilidade de tratamento especial. "Não desperdice seu tempo e dinheiro e não arrisque sua segurança e saúde." "É uma viagem mortal", disse o comissário em exercício da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) dos EUA, Mark A. Morgan.

O próprio Trump estendeu a "emergência nacional" na fronteira com o México na sexta-feira, imposta pela primeira vez em fevereiro de 2019 para desbloquear fundos e construir seu tão anunciado muro. "É necessária mais ação para enfrentar a crise humanitária e controlar a migração ilegal e o fluxo de narcóticos e criminosos", disse um comunicado da Casa Branca.

Mais de uma dúzia de caravanas, algumas com milhares de migrantes, deixaram Honduras desde outubro de 2018, mas encontraram milhares de militares e guardas posicionados por Trump na fronteira sul dos EUA com o México. Ainda assim, convocados nas redes sociais, eles insistem nessa longa jornada que, se concluída, os fará percorrer mais de 5 mil quilômetros./ AFP

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