Milhares de múmias incas são descobertas no Peru

Milhares de múmias incas, a maioria delas de 500 anos atrás, foram encontradas em um antigo cemitério localizado debaixo de uma favela nos arredores de Lima, capital do Peru.Acredita-se que este seja o maior cemitério pertencente a um único período jamais escavado no Peru. O arqueólogo coordenador do projeto, Guillermo Cock, acredita que provavelmente 10 mil incas tenham sido enterrados ali durante cerca de 75 anos, entre 1480 e 1535.Presume-se que o amplo sítio, de 20 acres, ou 81 mil metros quadrados, servisse como um cemitério central para os incas. Já foram desencavados os restos mortais de mais de 2.200 pessoas.Muitos dos sepultamentos são "trouxas" de múmias, alguns pesando centenas de quilos e unindo até sete pessoas, além de seus pertences. Algumas das múmias, aparentemente membros de elite da sociedade inca, ainda usam os enfeites de cabeça, feitos com penas, que indicavam sua posição social. Os arqueólogos já recuperaram entre 50 mil e 60 mil artefatos.A equipe de arqueólogos liderada por Cock, composta em sua maioria por peruanos, trabalhou freneticamente nos últimos três anos para salvar tantos túmulos quanto possível antes que a área da favela acima fosse derrubada para dar lugar a novos projetos.O local, conhecido pelos arqueólogos como Puruchuco-Huaquerones, é chamado de Tupac Amaru pelas 1.240 famílias que moram ali. As pessoas começaram a habitar o local em 1989, depois de fugir da guerrilha nas montanhas do Peru.O sítio arqueológico vinha sendo destruído a um ritmo alarmante, de acordo com Cock. Quando as escavações começaram, os habitantes jogavam mais de 150 litros de líquidos por dia nas ruas, inclusive esgotos, que se infiltravam no cemitério abaixo.A menos de dois metros de profundidade, as múmias, bem conservadas por cerca de 500 anos no solo ultra seco, começaram a se decompor. Outros túmulos já haviam sido destruídos por buldôzers em 1998. "As conseqüências causadas pela humanidade neste cemitério são terríveis,", diz Cock, acrescentando que algumas múmias estavam totalmente perfuradas por vermes. "Não foi um espetáculo bonito de se ver."O cemitério oferece uma amostra científica gigantesca do povo inca, dos bebês aos anciãos, dos pobres aos ricos. As causas de morte incluem sacrifício humano, trauma, má nutrição e possivelmente tuberculose. "Temos o que, em termos sociológicos, chamaríamos de amostra perfeita. Cada idade, classe e grupo social está proporcionalmente representado", afirmou Cock durante entrevista coletiva na sede da revista National Geographic, em Washington, que financiou parte da escavação."Isto vai nos dar uma oportunidade única de observar a comunidade inca, de estudar sua vida, sua saúde e sua cultura."Cock realiza trabalhos arqueológicos no Peru desde 1983 e é conselheiro do governo local.Os incas governaram uma vasta área da América do Sul, que se estendia da Colômbia ao Chile, até serem dizimados pelo espanhol Francisco Pizarro e seu bando de 160 caçadores de tesouro em 1533.A quantidade de túmulos encontrados é fantástica. Até agora, as informações recolhidas sobre a cultura inca vinham de cemitérios dispersos, a maioria deles com apenas alguns corpos enterrados, insuficientes para tirar conclusões sobre o modo de vida dos incas. "As múmias estão começando a ´conversar´ conosco, a contar algumas histórias interessantíssimas", diz Cock.Até agora, das 345 "trouxas" recuperadas, apenas três foram desenroladas, segundo Cock, por um processo penosamente lento e caro. Uma das "trouxas" de múmia, batizada de Rei do Algodão, era feita com cerca de 136 quilos de algodão cru. Dentro havia o corpo de um nobre inca e de um bebê, provavelmente aparentado, além de 70 itens, incluindo comida, cerâmica, pele de animais e milho para fazer chicha, uma bebida fermentada.Outra descoberta interessante: "cabeças falsas", 22 delas intactas e 18 danificadas. Trata-se de envoltórios normalmente reservados para a elite, com uma saliência no topo preenchida com algodão e similar a uma cabeça humana, muitas delas com perucas. Esses envoltórios contêm vários corpos, um deles a pessoa principal e os outros provavelmente seus acompanhantes no além-vida.Os corpos dos adultos estão na posição fetal tradicional, com seus pertences à sua volta. "Antes de nossas escavações, apenas uma cabeça falsa do período inca havia sido recuperada em 1956", afirma Cock.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.