AP Photo/Alfredo Zuniga
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Milhares de nicaraguenses marcham em apoio a bispos

Em fato inédito, cristãos católicos, evangélicos e mesmo não fiéis caminharam juntos pela capital Manágua para dar apoio aos bispado local, acusado pelo governo de ser golpista

O Estado de S.Paulo

28 Julho 2018 | 20h11

MANÁGUA - Milhares de nicaraguenses marcharam neste sábado, 28, em desagravo ao bispado local, acusado pelo governo de ser golpista nos protestos que atingem o país há mais de três meses e deixaram mais de 300 mortos, incluindo a estudante brasileira Raynéia Gabrielle Lima.

Em um fato inédito, cristãos católicos, evangélicos e mesmo não fiéis caminharam juntos por Manágua, entoando cânticos e rezas e levando imagens da Virgem Maria, assim como bandeiras da Nicarágua e da Igreja para dar seu apoio à instituição eclesiástica.

"Justiça", "liberdade", "Cristo hoje, Cristo sempre", "Nicarágua de Maria", "bispo amigo, o povo está contigo", gritava a multidão, que avançou lentamente e sem incidentes da emblemática rotatória Jean Paul Genie rumo à catedral de Manágua.

O clero já manifestou seu auxílio às pessoas mergulhadas na violência que envolve o país há mais de três meses e já deixou mais de 300 mortos, 2.000 feridos e um número não especificado de detidos e desaparecidos, segundo organismos de direitos humanos.

Nesse contexto, os bispos receberam ameaças, insultos e agressões por parte de membros do governo. O caso mais grave foi o ataque de paramilitares contra a paróquia da Divina Misericórdia, onde estudantes se refugiaram durante o desalojamento de uma universidade próxima.

Igreja defende diálogo

"Diante dessa situação sumamente crítica a Igreja fez ontem, hoje e sempre dar vida e ser a voz dos que não têm voz", disse o padre Silvio Fonseca, presente na caminhada.

"As igrejas evangélicas andam aqui em apoio aos católicos, porque somos nicaraguenses, e o mesmo sistema que os agride nos agride. Por isso, estamos nessa peregrinação", disse Henry Aguilar, de 55 anos.

"Somos evangélicos, o mesmo Deus nos une (...) Reconhecemos o trabalho dos senhores bispos", disse à imprensa uma senhora que estava na mobilização.

"Nossos templos sempre vão estar abertos para qualquer um que tenha necessidade", afirmou, no átrio da catedral, o monsenhor Carlos Avilés, pedindo à população que "não se deixe tentar pela violência e ajude o irmão em necessidade".

Também reiterou que "a opção da Igreja é pelo diálogo, para que as pessoas se entendam sempre, conversando".

Mediadora e testemunha do diálogo nacional, a Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN) apresentou uma proposta para democratizar o país, na qual sugere a antecipação das eleições de 2021 para março de 2019. O governo considerou a proposta uma tentativa de golpe de Estado. / AFP

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