AP Photo/Esteban Felix
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Milhares de peruanos protestam contra Keiko Fujimori às vésperas das eleições

Manifestantes gritavam ‘Nunca mais!’ e diziam que votar em Keiko seria votar em seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, que cumpre pena por abuso de direitos humanos e corrupção

O Estado de S. Paulo

06 Abril 2016 | 11h26

LIMA - Dezenas de milhares de peruanos marcharam contra Keiko Fujimori, líder nas pesquisas para a eleição presidencial, na terça-feira, aniversário do gesto autoritário mais infame de seu pai na Presidência, o que a obrigou a suspender eventos de campanha antes da votação de domingo.

Os manifestantes entoavam "Nunca mais!" e diziam que um voto para a postulante de centro-direita seria um voto para o ex-presidente Alberto Fujimori, que cumpre pena de 25 anos de prisão por abuso de direitos humanos e corrupção cometidos durante seu governo, entre os anos 1990 e 2000.

Segundo agências de notícias internacionais, entre 30 mil e 50 mil pessoas participaram do protesto em Lima, um sinal da oposição acirrada que pode tornar Keiko vulnerável em um eventual segundo turno. Projeções mostram que Keiko deve ficar com a maior parte dos votos na eleição de 10 de abril, mas não a maioria que precisaria para vencer de imediato.

Aos gritos de "Fujimori nunca mais", uma multidão composta majoritariamente por jovens se concentrou na Praça San Martin, no centro de Lima, sob uma bandeira peruana gigante, para percorrer três quilômetros pelas ruas da capital e retornar ao ponto de partida.

O protesto durou cerca de uma hora e não ocorreram incidentes violentos. A manifestação foi organizada por uma série de grupos identificados pelo nome de "Não a Keiko", que convocaram os eleitores por meio das redes sociais.

Muitos manifestantes desdenharam da promessa recente de Keiko de jamais repetir o "autogolpe" cometido por seu pai no dia 5 de abril de 1992, quando ele ordenou que os militares fechassem o Congresso e interveio nos tribunais. Fujimori havia defendido a medida anteriormente como algo necessário para aprovar reformas econômicas.

"Não acredito nem um pouco nela", disse Rodolfo Lazo, universitário de 19 anos que pintou as palavras "Sou jovem mas não sou idiota" na camiseta.

Os manifestantes também criticaram o comitê eleitoral do país por inocentar Keiko das alegações de ter violado uma lei contra a compra de votos ao mesmo tempo em que desclassificaram dois adversários bem posicionados na disputa. "Júri Nacional de Eleições, Vergonha Nacional!", dizia um cartaz.

A manifestação contou com o apoio do presidente Ollanta Humala, um militar da reserva que em 2000 liderou uma revolta contra Fujimrori ao lado de soldados que exigiam sua renúncia. "Fico satisfeito em ver que milhares de jovens sairão para marchar contra a ditadura e a favor da democracia", disse na noite de segunda-feira em uma entrevista à emissora Latina TV.

"Isto é parte da memória do país. Um povo que esquece de sua história está condenado a repeti-la", acrescentou o presidente, que deixa o poder em 28 de julho com baixa popularidade e sem que seu partido, o Partido Nacionalista, apresente um candidato para sucedê-lo.

Apesar do apoio do presidente, Jorge Bracamonte, secretário-executivo da Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos, uma das organizações que convocaram o protesto - junto a sindicatos e ONGs - destacou que o protesto "é uma convocação política sem identidade partidária".

Ainda na terça-feira, Keiko cancelou suas aparições públicas e pediu a seus apoiadores para suspenderem as atividades de campanha antes de comícios que estavam programados para acontecer em várias cidades.

Seu partido pediu tolerância no Twitter e publicou fotos de escritórios de campanha de várias cidades cobertos por faixas com os dizeres "Chega de Violência".

A manifestação em Lima foi pacífica. Protestos menores fora da capital terminaram em confrontos, e oponentes atiraram ovos em Keiko durante eventos de campanha.

A marcha de terça-feira foi o maior protesto político em Lima desde as grandes manifestações contra Alberto Fujimori em 2000, quando ele tentava iniciar um terceiro mandato após eleições amplamente vistas como fraudulentas. /REUTERS e AFP

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