Atul Loke/The New York Times
Atul Loke/The New York Times

Milhares fogem de Mianmar para a Índia em meio ao temor de uma crescente crise de refugiados

Por décadas, conflitos armados, repressão política e campanhas contra minorias forçaram centenas de milhares a deixar o país; agora, muitos outros seguem o mesmo caminho

The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 18h18

Em Mianmar, agricultores aterrorizados e famílias com crianças estão fugindo para a Índia enquanto a junta militar, que tomou o poder em um golpe em fevereiro, continua perseguindo e eliminando a resistência na fronteira do país.

O Tatmadaw, como é conhecido o Exército de Mianmar, tem como alvo áreas que abrigam milhares de civis armados que se autodenominam a Força de Defesa do Povo. Soldados dispararam lançadores de foguetes contra bairros residenciais, incendiaram casas, cortaram o acesso à internet e o suprimento de alimentos e até atiraram em civis que fugiam, segundo moradores.

Por mais de sete décadas, conflitos armados, repressão política e campanhas direcionadas contra minorias como os rohingyas forçaram centenas de milhares de pessoas em Mianmar a buscar refúgio em outros países. Agora, espera-se que muitos outros sigam os mesmos passos.

Grupos de ajuda humanitária dizem que estão se preparando para um enorme fluxo de refugiados, mas temem que os países ao redor do Mianmar, como a Tailândia, possam mandá-los de volta. No Estado de Chin, no noroeste do país, uma cidade inteira de cerca de 12 mil habitantes foi praticamente esvaziada no mês passado. Moradores relataram um grande aumento das tropas nas últimas semanas, sinalizando uma possível repressão mais ampla do Tatmadaw e deixando muitas pessoas desesperadas para escapar.

Após as tropas incendiarem sua casa com granadas lançadas por foguete, no dia 18 de setembro, Ral That Chung decidiu que não tinha escolha a não ser deixar Thantlang, sua cidade no Estado de Chin.

“Eu amo Mianmar, mas só voltarei se houver paz”, disse Ral That Chung, que caminhou por oito dias com dez membros de sua família para chegar à Índia. “É melhor sofrer aqui do que viver com medo em meu próprio país.”

Nos oito meses desde que o Exército assumiu o controle, cerca de 15 mil cidadãos fugiram para a Índia, de acordo com as Nações Unidas. Catherine Stubberfield, porta-voz do Escritório do Alto Comissariado da ONU para Refugiados na Ásia e no Pacífico, disse que a agência rastreou cerca de 5 mil pessoas que entraram com sucesso na Índia vindas de Mianmar após confrontos recentes.

“A brutalidade com que aldeias inteiras são atacadas indiscriminadamente criou uma situação horrível, deixando as pessoas absolutamente desesperadas”, disse Tom Andrews, relator especial da ONU para Direitos Humanos em Mianmar. “E as coisas estão piorando.”

Os refugiados dizem que dormem nas florestas por dias, alguns deles ficam sem comida enquanto caminham em direção à Índia. Assim que alcançam a travessia do Rio Tiau, que separa os dois países, pegam uma jangada de bambu ou um barco para chegar a um local seguro.

Na pequena Vila de Ramthlo, Crosby Cung disse que todas as mil pessoas que moram lá estavam se preparando para partir. Os moradores, disse ele, selecionaram de dois a três lugares onde cerca de 500 pessoas podem se esconder na floresta até que estejam prontas para ir para a fronteira com a Índia. Na semana passada, soldados incendiaram uma aldeia vizinha.

“É muito triste ver isso”, disse Cung. “Deixar sua aldeia e fugir para a selva não é o que queremos fazer. Eu quero proteger minha aldeia para que eles não a roubem e incendeiem. Mas nós, os civis, não podemos fazer nada. Não temos escolha a não ser fugir.”

O êxodo recente foi mais intenso no Estado de Chin, um reduto da Força de Defesa do Povo, onde os civis frequentemente sofreram o impacto da crueldade do Tatmadaw. Em agosto e setembro, 28 das 45 pessoas mortas na região da fronteira rural eram civis, de acordo com a Organização de Direitos Humanos de Chin.

O Estado de Chin faz fronteira com o Estado indiano de Mizoram e é predominantemente cristão. Muitos dos moradores de Mizoram também são da etnia chin e têm laços estreitos com o povo de Chin em Mianmar, mas tiveram sua paciência testada quando as autoridades de Mizoram atribuíram aos refugiados a culpa por um surto recente de covid-19.

Um funcionário distrital de Mizoram que não quis ser identificado por não estar autorizado a falar disse que embora a política do governo indiano seja de manter as fronteiras fechadas para refugiados, os moradores locais estão ajudando extraoficialmente aqueles que fogem de Mianmar. Se os moradores não prestassem assistência, disse a autoridade, os refugiados morreriam.

Phil Robertson, vice-diretor da divisão da Ásia do Observatório de Direitos Humanos, alertou que a situação dos refugiados se tornaria mais difícil com o tempo. “Os recursos ficarão cada vez mais escassos e pode haver pressão para enviá-los de volta”, disse.

Na Índia, os refugiados vivem em barracos com telhados de lata ou lonas de plástico no alto. Van Certh Luai, de 38 anos, uma refugiada que chegou a Mizoram depois de caminhar por três dias, disse que sua família de seis pessoas recebe apenas três litros de água por dia para beber, se lavar e tomar banho. Os mosquitos se alimentam da pele deles. Mas a família diz que eles não vão sair de lá. “Não quero que meus três filhos cresçam com medo”, disse Van Certh Luai.

Os combates no Estado de Chin começaram em agosto, quando 150 soldados chegaram à cidade e começaram a atirar com morteiros, ferindo pessoas e danificando casas. Em 6 de setembro, a Força de Defesa de Chinland - o “braço” de Chin na Força de Defesa Popular - disse que matou 15 soldados.

Ativistas de direitos humanos dizem que a junta tem como alvo o Estado de Chin por ser o lar da Frente Nacional de Chin, o primeiro grupo armado étnico a apoiar o chamado Governo de Unidade Nacional, a organização fundada pelos líderes eleitos - e depostos - de Mianmar. O grupo rebelde também tem treinado milhares de manifestantes antigolpe que pegaram em armas contra os militares. Mas civis inocentes foram pegos no fogo cruzado.

Cer Sung, de 44 anos, contou ter ouvido barulho de tiros e bombas por volta das 16h do dia 15 de agosto, enquanto preparava pipoca em casa, na cidade de Thantlang, no Estado de Chin. Em pânico, ela procurou seu filho de 10 anos, que assistia seu desenho animado hindu favorito na televisão, com o controle remoto na mão esquerda. Quando ela entrou na casa, fragmentos de projéteis de artilharia começaram a cair entre ela e seu filho.

Cer Sung lembra de ter visto o lado esquerdo do corpo de seu filho em chamas. O dedo indicador que estava sobre o controle remoto explodiu. Ele morreu no local. “Estou furiosa com o Exército do Mianmar por matar brutalmente meu único filho”, disse Cer Sung, soluçando.

Ela e sua família decidiram permanecer em Mianmar por enquanto, com medo de ficar, mas temendo descobrir como seria a vida se eles partissem. Outras famílias se esforçaram para sair tão rapidamente que não tiveram muito tempo para se preparar.

Sui Tha Par disse ter encontrado o marido, Cung Biak Hum, deitado na beira de uma estrada com dois ferimentos de bala, nas costas e no peito, depois que ele correu para apagar um incêndio causado pelas tropas do Tatmadaw, em Thantlang, no dia 18 de setembro. Seu dedo anelar foi cortado e sua aliança de ouro tinha sumido, de acordo com membros da família.

“Eles atiraram no meu marido até a morte”, disse Sui Tha Par, em lágrimas. Ela contou que está grávida e espera dar à luz no próximo mês. Depois de enterrar o marido, Sui Tha Par e seus dois filhos, de 11 e 7 anos, decidiram partir para Mizoram. 

 

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