EFE/EPA/TATYANA ZENKOVICH
EFE/EPA/TATYANA ZENKOVICH

Até que me matem, não haverá eleição, diz líder da Bielo-Rússia

Com trabalhadores em greve geral, Lukashenko é vaiado em visita a fábrica estatal e diz que prepara referendo para deixar o poder

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 08h45
Atualizado 17 de agosto de 2020 | 18h49

MINSK - O presidente da Bielo-Rússia, Alexander Lukashenko, rejeitou novamente nesta segunda-feira, 17, novas eleições presidenciais, mas admitiu que pode partilhar o poder com outros líderes políticos. No nono dia de protestos e em meio a uma greve geral, ele foi vaiado por manifestantes em visita a uma fábrica de veículos pesados. “Obrigado, já disse tudo o que queria dizer. Podem dizer ‘fora’”, afirmou irritado ao final de seu discurso. Ao falar a um grupo de apoiadores no domingo, o líder já havia dito que não concordaria com novas eleições

Na visita, o presidente insistiu que não abandonará o poder. “Nunca farei algo sob pressão”, declarou. “Até que me matem, não haverá eleições.” A visita à unidade da MZKT, estatal criada aos moldes soviéticos, provocou confronto entre polícia e manifestantes, incluindo trabalhadores que estão de braços cruzados – ele chegou ao local de helicóptero. 

A oposição havia convocado para hoje uma greve geral, que teve forte adesão – além dos funcionários da fábrica de veículos, policiais, jornalistas da imprensa oficial e até um embaixador aderiram ao movimento.

Milhares de manifestantes se reuniram diante da fábrica e em frente à sede da TV estatal, em Minsk. Com bandeiras brancas e vermelhas, cores da oposição, eles gritaram palavras de ordem contra o presidente, que está há 26 anos no poder e foi reeleito no dia 9 com 80% dos votos. A oposição diz que a eleição foi fraudada. A União Europeia também não reconheceu o resultado oficial.

De acordo com a agência oficial de notícias, a BelTA, o bielo-russo admitiu que poderia entregar o cargo depois da realização de um referendo sobre mudanças na Constituição. As alterações na lei já estariam em andamento, segundo Lukashenko, mas não acontecerão sob pressão dos manifestantes. 

“Faremos as mudanças em referendo e entregarei meus poderes constitucionais. Mas não sob pressão ou em razão das ruas”, disse o presidente, que afirmou que, só assim, poderiam ser realizadas novas eleições. “Sim, não sou santo. Vocês conhecem meu lado duro. Não sou eterno. Mas, se vocês me arrastarem, arrastarão países vizinhos e todo o resto ”, disse Lukashenko, que aponta uma interferência externa nos distúrbios no país.

Svetlana Tikhanovskaya, candidata de oposição derrotada, que recebeu oficialmente 10% dos votos, afirmou hoje que está pronta para liderar a Bielo-Rússia, um dia depois da maior manifestação popular do país – diferentemente das vezes anteriores, não houve repressão policial. 

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Desde a noite da eleição, a ex-república soviética se tornou cenário de manifestações que foram, em um primeiro momento, violentamente reprimidas pelas autoridades. 

Tikhanovskaya afirmou nesta segunda que está pronta para liderar o país. "Não queria ser política. Mas o destino decretou que deveria estar na linha de frente contra a arbitrariedade e a injustiça", declarou a opositora, refugiada na Lituânia, em um vídeo.  "Estou preparada para assumir minhas responsabilidades e atuar como líder nacional", completou.

"Vocês, que acreditaram em mim, que me deram força, admiro hoje cada minuto de sua coragem, sua auto-organização e como são fortes e brilhantes", completou Tikhanovskaya, que afirmou desejar "sair deste círculo sem fim em que nos encontramos há 26 anos", em referência ao período de governo de Lukashenko.

Nesta segunda-feira, o governo do Reino Unido afirmou que não aceita os resultados da eleição presidencial de 9 de agosto em Bielo-Rússia e deseja adotar sanções contra os responsáveis pela repressão no país. "Precisamos com urgência de uma investigação independente da OSCE" (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), declarou o chefe da diplomacia britânica, Dominic Raab. / AFP, EFE e Reuters 

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