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Milhares protestam contra governo no Irã; confrontos deixam dois mortos

Onda de manifestações contra crise econômica entra no terceiro dia e já é a maior desde 2009, quando a população se revoltou contra a eleição de Mahmoud Ahmadinejad; presidente iraniano alerta manifestantes que violência é inaceitável

O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 19h56
Atualizado 31 Dezembro 2017 | 17h16

TEERÃ - A agência de notícias iraniana Mehr informou neste domingo, 31, que dois manifestantes morreram no fim de semana no oeste do país. As mortes foram as primeiras registradas nas manifestações contra a crise econômica, que começaram na quinta-feira e já são as maiores do Irã desde os distúrbios após a eleição presidencial de 2009.

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As mortes ocorreram em Doroud, cidade cerca de 325 quilômetros a sudoeste de Teerã, na Província de Lorestan. Habibollah Khojastepour, autoridade de segurança do governo local, afirmou que os manifestantes se reuniram para um protesto não autorizado. "A reunião deveria terminar pacificamente, mas em razão da presença (de agitadores), infelizmente, isso aconteceu", disse Khojastehpour.

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Ele não revelou a causa da morte dos dois, mas garantiu que "não foram balas disparadas pelos policiais ou pelas forças de segurança". Vídeos de Doroud, que circularam nas redes sociais, mostravam manifestantes caídos e tiros ao fundo.

A onda de protestos começou na quinta-feira, em Mashed, segunda maior cidade do país e local sagrado xiita. No dia seguinte, as manifestações se espalharam rapidamente para a capital Teerã, forçando a TV estatal a quebrar o silêncio, no sábado, reconhecendo que não havia reportado os protestos por ordens das autoridades.

Após três dias de manifestações, pelo menos 50 pessoas foram presas. Neste domingo, a agência de notícias Ilna informou que a polícia prendeu cerca de 80 manifestantes apenas na cidade de Arak, cerca de 280 quilômetros ao sul de Teerã.

Ameaça

A Guarda Revolucionária do Irã alertou neste domingo que apertará o cerco contra quem participar das marchas consideradas ilegais pelo regime e ameaçou usar "punho de ferro" caso a turbulência política continue. 

O acesso à internet foi cortado para os dispositivos móveis. A nova onda de protestos parece ter sido deflagrada após um aumento recente de 40% nos preços dos ovos e das aves, que um porta-voz do governo atribuiu à restrição de oferta em razão da gripe aviária.

Muitos manifestantes, no entanto, afirmam protestar também contra corrupção e outras dificuldades econômicas vividas pela população. A economia iraniana melhorou desde o acordo nuclear de 2015, mas o desemprego continua alto e a inflação oficial voltou a subir. 

O clima em diversas cidades é tenso, com destruição de patrimônio público nas ruas, incluindo bancos e prédios públicos. Muitos manifestantes entoaram pedidos de destituição ou de morte para o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. 

Reação

O presidente do Irã, Hassan Rohani, afirmou neste domingo que os órgãos governamentais devem permitir "espaço para a crítica", mas alertou aos manifestantes que a violência é inaceitável. "A crítica não é o mesmo que a violência e a destruição dos bens públicos", disse em uma reunião do Executivo, acrescentando que "os órgãos do governo deveriam fornecer espaço para a crítica legal e os protestos", segundo a rede de TV pública.

Rohani também declarou que o líder americano, Donald Trump, "não tem o direito" de simpatizar com os manifestantes iranianos, os quais chamou anteriormente de "terroristas". "Este homem que hoje, nos EUA, quer simpatizar com a nossa gente, se esqueceu que há alguns meses chamou o Irã de terrorista", disse.

No sábado, Trump reiterou suas advertências ao poder iraniano, declarando que "os regimes opressivos não podem durar para sempre".

Para lembrar

A última onda de protestos no Irã ocorreu em 2009, quando a população foi às ruas contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad – os resultados teriam sido fraudados. A marca dos distúrbios foi o uso do Twitter pelos organizadores das marchas, que foram brutalmente reprimidas. Segundo opositores, 72 pessoas morreram e 4 mil foram presas. / REUTERS, AP e AFP

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