Lam Yik Fei / The New York Times
Lam Yik Fei / The New York Times

Dois milhões protestam em Hong Kong e governo se desculpa por repressão

Manifestantes exigem arquivamento, não apenas a suspensão, do polêmico projeto de lei que permitiria extradições à China; comunidade empresarial teme que reforma prejudique a imagem internacional e a atratividade do centro financeiro

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 06h36
Atualizado 17 de junho de 2019 | 12h10

HONG KONG - Cerca de dois milhões de pessoas saíram às ruas neste domingo, 16, em Hong Kong, uma participação recorde segundo os organizadores, para exigir a retirada do projeto de lei sobre extradições à China, forçando o governo pró-Pequim a apresentar "desculpas" por ter provocado os confrontos.

"Na manifestação de hoje, contabilizamos quase dois milhões de pessoas", afirmou a jornalistas Jimmy Sham, representante da Frente Cívica de Direitos Humanos (CHRF).

Na manhã de segunda-feira (horário local; noite de domingo em Brasília), a polícia de Hong Kong disse que quer tirar os manifestantes das ruas. Muitos deles passaram a madrugada instalados perto do Conselho Legislativo (LegCo, o Parlamento).

Os organizadores pretendem manter pressão sobre Carrie Lam, chefe do Executivo pró-Pequim de Hong Kong, que, no sábado, suspendeu o projeto de lei que autorizaria as extradições à China.

"Retire a lei do mal", gritavam os manifestantes vestidos de preto. A marcha partiu de um parque e seguiu para o LegCo, no centro da cidade. Trata-se do mesmo percurso realizado há uma semana e que reuniu um milhão de pessoas, de acordo com os organizadores.

Segundo os críticos, o projeto colocaria a população da ex-colônia britânica à mercê do sistema judiciário da China continental, controlado pelo Partido Comunista. A comunidade empresarial teme ainda a possibilidade de a reforma prejudicar a imagem internacional e a atratividade do centro financeiro.

Acusada de autoritarismo, Carrie apresentou neste domingo suas "desculpas" e reconheceu que as "lacunas no trabalho do governo provocaram muitos conflitos e rixas na sociedade". Ela justificou a repressão das manifestações pelos atos de violência por parte de alguns manifestantes.

Na quarta-feira, Hong Kong registrou os piores episódios de violência desde a devolução do território à China em 1997, quando milhares de pessoas foram dispersadas pela polícia com gás lacrimogêneo e balas de borracha. "Polícia de Hong Kong, o seu dever é nos proteger, não atirar contra nós", dizia o cartaz de um manifestante.

Pressão

Carrie Lam não desistiu permanentemente do texto. Por isso, os manifestantes exigem o abandono do projeto, a renúncia da chefe de governo e desculpas pela violência policial. "Essa suspensão significa que o projeto pode ser reativado a qualquer momento", afirmou o militante Lee Cheuk-yan.

Jimmy Sham comparou o projeto a uma "faca" ameaçando Hong Kong. "Quase atingiu nossos corações. Agora o governo diz que não vai avançar, mas também se recusa a retirá-lo."

A oposição ao projeto de lei é ampla, reunindo advogados, organizações jurídicas influentes, empresários, câmaras de comércio, jornalistas, ativistas, religiosos e diplomatas ocidentais. Sob o princípio de "um país, dois sistemas", a ex-colônia britânica permaneceria, até 2047, sob soberania chinesa, mas com independência para manter os próprios sistemas político e jurídico.

O movimento vai além da questão das extradições e expressa um ressentimento muito maior contra o governo de Hong Kong e Pequim, acusados de cercear as liberdades do território semiautônomo. Nos últimos dias, a chefe de governo tem estado cada vez mais isolada, com deputados de seu próprio campo distanciando-se do texto.

"Apoiamos, respeitamos e entendemos" a decisão de suspender o texto, declarou o Ministério das Relações Exteriores da China, citando a necessidade de "restaurar a calma o mais rápido possível" no território. "Os grupos pró-democracia não vão parar por aí. Querem aproveitar o impulso contra Carrie Lam", disse o analista político Willy Lam.

Agora os manifestantes exigem que a polícia retire as acusações contra os que foram citados como desordeiros. Eles temem represálias do governo, afirmou o militante Lee Cheuk-yan, e querem a garantia de que "o povo, os manifestantes, não sejam assediados e politicamente perseguidos pelo governo".

Na China, a imprensa estatal e as redes sociais estavam em silêncio sobre o movimento e mesmo sobre o recuo do governo de Hong Kong. Em Washington, o secretário de Estado, Mike Pompeo, informou que o presidente Donald Trump pretende comentar as manifestações com seu colega chinês Xi Jinping durante a cúpula do G-20 no fim de junho no Japão.

Jovens na linha de frente

Os jovens de Hong Kong que enfrentaram a polícia de choque na última semana explicaram por que escolheram a estratégia do confronto depois de anos de manifestações pacíficas contra a erosão das liberdades na ex-colônia britânica.

Em sua maioria estudantes, eles relatam ter perdido a fé nas manifestações pacíficas. Os líderes dos movimentos pró-democracia anteriores estão presos e, por isso, os jovens de hoje não têm orientação e devem se organizar em pequenas células.

Na linha de frente, Sharon, uma estudante de 18 anos, afirma ter percebido três dias antes que as manifestações pacíficas são inúteis. "Percebi que, mesmo que um milhão de pessoas protestem, isso não tem impacto", afirmou ela. "Elas entenderam que as manifestações pacíficas não funcionam."

Andrew, de 22 anos, e um grupo de oito amigos prepararam-se cuidadosamente antes de ir à manifestação. Eles compraram material para se proteger, óculos e papel transparente para embalar alimentos e evitar as queimaduras provocadas pelo gás lacrimogêneo, além de ataduras para eventuais feridas.

"Ninguém nos disse para usar a força ou ir para a linha de frente", ressaltou. A decisão de enfrentar as forças de ordem para tentar entrar no Parlamento foi espontânea, sem ordens vindas de cima.

É evidente o contraste com o imenso movimento pró-democracia de 2014, quando os manifestantes ocuparam bairros inteiros por mais de dois meses para exigir que a eleição do chefe de governo fosse feita por sufrágio universal. Apesar de confrontos esporádicos com a polícia, o movimento naquela época foi em grande parte pacífico, liderado por líderes claramente identificados.

Mas a "Revolta dos Guarda-Chuvas" não conseguiu obter a menor concessão, e várias figuras do movimento estão na prisão. "O que fizemos foi insuficiente para o governo perceber a raiva e o descontentamento do povo. E é por isso que agora decidimos mudar", explicou Andrew.

Uso excessivo de força

A polícia descreveu a manifestação da quarta-feira de tumulto, com "pessoas organizadas, preparadas, radicais e violentas", segundo um comissário de polícia. O chefe da polícia de Hong Kong defendeu seus agentes e afirmou que eles foram atacados com projéteis, como paralelepípedos.

Tanto as forças de segurança quanto a própria Carrie Lam foram acusadas de uso excessivo da força por grupos de direitos humanos, advogados e juristas. Vários pais de família protestaram com cartazes que diziam: "Não atirem nos nossos filhos".

Andrew, que afirma ter sido espancado com cassetetes, garante que as pessoas começaram a justificar as táticas mais radicais. "Havia pessoas de terno que vieram nos perguntar se precisávamos de alguma coisa", disse ele.

Leung, uma estudante que participou de todas as manifestações dos últimos anos, contou que sua geração "não tem nada a perder".

Para Andrew, as possíveis repercussões do projeto de extradição são mais fortes do que o medo de ser preso. "Mesmo se eu escolher o conforto e me tornar um banqueiro, se esta lei for adotada, me sentirei ameaçado." / AFP

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