Milhares se reúnem no Cairo para apoiar candidato presidencial salafista

Milhares de pessoas realizaram ontem um protesto no centro do Cairo em apoio a Hazem Abu Ismail, candidato salafista à presidência do Egito, que pode ser retirado da disputa porque sua mãe tinha cidadania americana. Pela lei eleitoral do país, todos os candidatos à presidência, seus pais e esposas devem ter apenas cidadania egípcia.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h05

"As pessoas querem Hazem Abu Ismail! Não à manipulação!", gritavam os manifestantes após caminharem pelo centro do Cairo até a Praça Tahrir, epicentro do levante de 2011 que derrubou o presidente Hosni Mubarak.

Os manifestantes, dentre os quais havia mulheres vestidas com o véu islâmico, carregavam fotografias de Ismail e levantavam os braços em condenação às tentativas de desqualificação do candidato.

Ismail lançou sua candidatura no dia 30 com uma grande carreata que terminou na sede da comissão eleitoral, no Cairo. Na quinta-feira, o chefe da comissão, Hatem Begato, disse que a agência havia recebido informações de que a mãe de Ismail "havia usado um passaporte americano" antes de morrer.

"Os arquivos serão examinados nos dias 12 e 13 de abril e qualquer candidato que não se enquadrar nos requisitos será informado", disse a comissão. Os recusados terão 48 horas para fazer uma apelação antes do anúncio da lista final de candidatos, em 26 de abril.

Transição. Ismail defende uma rígida interpretação do Islã, semelhante à praticada na Arábia Saudita, e tornou-se uma figura conhecida no Cairo, já que pôsteres com seu retrato foram colocados em muitos carros e micro-ônibus da capital.

A eleição presidencial de maio marcará o início da entrega do poder pelos militares e a escolha do primeiro líder civil após o levante que derrubou o regime de Mubarak.

Ismail deve concorrer contra candidatos islamistas mais moderados, como Khairat al-Shater, da Irmandade Muçulmana, e contra pessoas ligadas ao antigo regime, como Amr Mussa, que foi ministro de Relações Exteriores de Mubarak.

Os islamistas fizeram grandes avanços desde a queda de Mubarak, conquistando a maioria nas duas casas do Parlamento. O Partido da Liberdade e da Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, conquistou a maior parte dos assentos nas eleições parlamentares no início do ano, mas os salafistas conseguiram, sozinhos, quase um quarto das cadeiras.

Nova concorrência. O ex-chefe de inteligência e ex-vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, anunciou ontem que também será candidato às eleições presidenciais de maio. Embora recentemente ele tenha assegurado que não se concorreria, Suleiman disse que mudou de ideia para responder a um "apelo popular".

O anúncio surpreendente ocorreu dois dias antes do encerramento da apresentação de candidaturas - amanhã é a data-limite para a inscrição dos candidatos. Ontem, muitos egípcios saíram às ruas de um bairro do Cairo para pedir a Suleiman que se apresentasse.

"O chamado que fizeram é uma ordem e sou um soldado que nunca desobedeceu a nenhuma ordem na vida", disse Suleiman, em comunicado. "Só quero responder ao chamado e participar das eleições, apesar dos obstáculos e das dificuldades."

Suleiman, de 74 anos, afirmou, no entanto, que precisará ainda obter as assinaturas e o apoio necessários para a validação de sua candidatura. Ele prometeu "mobilizar todos os esforços possíveis para realizar a mudança esperada, completar os objetivos da revolução e realizar as esperanças do povo egípcio". Os candidatos precisam de 30 mil assinaturas ou o apoio de um partido do Parlamento para entrar na disputa presidencial.

Muitos ativistas egípcios acreditam que Suleiman tenha decidido se lançar candidato após receber apoio dos principais líderes militares do país. De acordo com eles, Suleiman seria o nome ideal para resguardar os interesses econômicos das Forças Armadas e manter o orçamento egípcio distante de uma supervisão do governo civil. / REUTERS, AP e AFP

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