Gonzalo Fuentes/Reuters
Gonzalo Fuentes/Reuters

Reforma da previdência de Macron causa greve geral e leva milhares às ruas da França

Protestos em cidades como Paris, Marselha, Montpellier, Nantes e Lyon paralisaram o país; governo quer estabelecer sistema único - para eliminar os 42 regimes especiais - no qual todos os trabalhadores terão os mesmos direitos

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 15h40
Atualizado 06 de dezembro de 2019 | 15h42

PARIS - Milhares protestaram nesta quinta-feira, 5, contra a  reforma da previdência do presidente Emmanuel Macron, um projeto que também causou uma greve na França. Ficaram parados transportes, escolas, hospitais e refinarias. Nas ruas de Paris, manifestantes montaram barricadas e fizeram fogueiras com o que encontravam pela frente: lixo, pneus e grades. Lojas e pontos de ônibus foram incendiados. Houve confronto com a polícia, que prendeu 87 pessoas.

Cerca de 90% dos trens não circularam e várias estações de metrô fecharam as portas. A Torre Eiffel também não abriu, segundo a administração, porque a “equipe não era suficiente para abrir o monumento em condições de segurança”. O Palácio de Versalhes e o Museu do Louvre aconselharam que os turistas adiassem as visitas.

Também era quase impossível chegar ao aeroporto Charles de Gaulle, porque a linha de trem que liga Paris aos terminais funcionava de maneira parcial. A paralisação de parte dos controladores aéreos obrigou a Air France a cancelar 30% dos voos domésticos e 15% dos voos para destinos na Europa. 

As primeiras passeatas começaram ao meio-dia em várias cidades, além de Paris. Protestos foram registrados em Marselha, Montpellier, Nantes e Lyon. “Não vimos nada assim desde a mobilização contra a reforma da previdência em 2010, durante a presidência de Nicolas Sarkozy” disse a sindicalista Dominique Holle.

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Reforma é a mais audaciosa da agenda social do presidente francês para este ano e busca extinguir as distorções que beneficiam vários setores; em contrapartida, não haverá aumento da idade de aposentadoria, hoje fixada em 62 anos

A indignação popular foi motivada pela nova reforma da previdência de Macron, uma promessa de campanha que tem como objetivo eliminar os 42 regimes especiais que existem atualmente e concedem privilégios a determinadas categorias profissionais. O governo pretende estabelecer um sistema único, no qual todos os trabalhadores terão os mesmos direitos. O governo pretende estabelecer um sistema único, no qual todos os trabalhadores terão os mesmos direitos no momento de receber a aposentadoria.

Para o governo, este é um sistema mais justo e mais simples, no qual “cada euro cotado dará a todos os mesmos direitos”. Os sindicatos, porém, temem que o novo sistema adie a aposentadoria, que atualmente ocorre aos 62 anos, e diminua o valor das pensões.

Macron, que pretende apresentar a reforma ao Parlamento no início de 2020, disse ontem que está “determinado” a levar o projeto adiante. Ele prometeu dar detalhes da reforma na semana que vem. Os sindicatos, no entanto, ameaçam prolongar a greve por tempo indeterminado. Os transportes públicos anunciaram a prorrogação da paralisação até segunda-feira. Para evitar o caos nos transportes, muitos franceses optaram por trabalhar de casa. 

“Pedi para trabalhar de casa, mas espero que a greve não dure muito, porque não posso fazer isto por muito tempo”, disse Diana Silavong, executiva de uma empresa farmacêutica. Quem não conseguiu ficar em casa, teve de encontrar outras formas de chegar ao trabalho. “Queria pegar uma bicicleta, mas acho que todos tiveram a mesma ideia”, afirmou Guillaume, sorrindo, diante de uma estação de bicicletas gratuitas completamente vazia em Paris. “Vou ter de seguir para o escritório a pé.”

O caos e a desinformação também prejudicaram os turistas, muitos deles surpresos ao ver as portas fechadas do metrô e de vários monumentos. “Compramos passagens, mas não há ninguém para nos informar”, disseram Pedro Marques e Ana Sampaio, dois portugueses que pretendiam visitar Montmartre.

As principais refinarias do país também não funcionaram. Sete das oito instalações estão paradas. Algo “inédito”, de acordo com o secretário do setor de petróleo do sindicato CGT, Emmanuel Lépine. 

Como pelos menos 51% dos professores do ensino básico aderiram à greve, muitas escolas permaneceram fechadas. Policiais, garis, advogados, aposentados e motoristas de transportadoras, assim como os “coletes amarelos”, o influente movimento social surgido em novembro de 2018, cruzaram os braços.

O protesto também recebeu o apoio de 182 artistas e intelectuais, entre eles o economista Thomas Piketty, autor de um best-seller sobre a desigualdade, assim como todos os partidos de esquerda da França. / REUTERS e AFP

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