REUTERS/Evgenii Pereverzev
REUTERS/Evgenii Pereverzev

Multidão protesta contra Putin no extremo leste da Rússia

Presidente russo trocou governador por político que nem conhecia a região, a 8 mil quilômetros de Moscou

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 11h21
Atualizado 26 de julho de 2020 | 01h06

KHABAROVSK - Milhares de manifestantes foram às ruas contra o governo de Vladimir Putin na cidade de Khabarovsk, no extremo leste da Rússia, após a prisão de um governador popular e sua substituição por um político indicado pelo Kremlin que nunca viveu nessa parte do país.

Khabarovsk, que fica a mais de 8 mil quilômetros a leste de Moscou, tem cerca de 600 mil habitantes e não tinha protesto assim desde o começo dos anos 1990. Enquanto os manifestantes falam em 90 mil presentes, autoridades locais disseram que 6.500 pessoas participaram. 

Os habitantes da cidade, perto da fronteira com a China, saíram às ruas após a prisão, em 9 de julho, do governador Serguei Furgal, acusado de assassinatos. Ele foi demitido na segunda-feira passada e substituído pelo deputado Mikhail Degtiarev, de 39 anos. O Kremlin afirmou nesta semana que a manifestação foi instigada por militantes da oposição de fora da região. 

A marcha de cinco quilômetros pelas ruas centrais ocorreu pela terceira semana consecutiva. Moradores estavam se unindo em apoio ao governador, mas a mobilização, com poucos precedentes na Rússia pós-soviética, emergiu como um testemunho do descontentamento que o presidente Vladimir Putin enfrenta no país.

Putin venceu há menos de quatro semanas um referendo que reescreveu a Constituição para permitir que ele permanecesse no cargo até 2036. A votação, vista como fraudulenta por críticos e analistas, foi uma fagulha para a insatisfação popular contra corrupção, liberdades reprimidas e renda estagnada, algo agravado pela pandemia. 

Em toda a Rússia, o medo de ser detido pela polícia e a aparente desesperança de efetuar mudanças mantiveram as pessoas fora das ruas. Muitos russos também dizem que, sejam quais forem as falhas de Putin, a alternativa pode ser pior. Na maior parte, os protestos contra o Kremlin foram limitados a milhares de pessoas em Moscou e outras grandes cidades, onde há repressão severa. 

Putin permanece firmemente no controle. Pesquisas independentes mostram que ele ainda tem aprovação de 60%, embora o número esteja caindo. Os atos em Khabarovsk indicam que eventos menores podem provocar uma tempestade. Os manifestantes eram tantos que a polícia nem mesmo tentou controlá-los – mesmo que eles não tivessem permissão, muito menos um líder.

Revolta

Os manifestantes lotaram as ruas da cidade agitando bandeiras regionais, carregando faixas e repetindo slogans contra Putin. “Queremos que nosso governador seja libertado porque acreditamos que ele foi detido ilegalmente”, disse a manifestante Alina Slepova, de 24 anos. Os manifestantes se reuniram do lado de fora da sede da administração regional na Praça Lenin, gritando por liberdade e pedindo a saída de Putin.“Vergonha no Kremlin!”, “Rússia, acorde!” e “Nós somos os que estão no poder!” eram algumas das frases. 

“Haverá uma revolução”, afirmou a vendedora Irina Lukasheva, de 56 anos. “Por que nossos avós lutaram? Não foi pela pobreza ou pelos oligarcas sentados ali no Kremlin”. “O centro (Moscou) está tirando recursos do extremo oriente”, disse Alexander Gogolev, de 45 anos, que expressou descontentamento por a região “não receber nada em troca”.

“Quando uma pessoa vive sem saber como as coisas deveriam ser, acha que as coisas são boas”, comentou Artyom Aksyonov, de 31 anos, que trabalha no setor de transporte e estava entregando água do porta-malas de seu carro a manifestantes. “Mas quando você abre os olhos para a verdade, percebe que as coisas não eram boas”. polícia de Moscou deteve pelo menos dez pessoas que se reuniram na capital em apoio aos manifestantes de Khabarovsk, segundo ONGs. / AFP e NYT

 

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