Milhões de pessoas vão às ruas do Egito para exigir a renúncia de Morsi

Milhões de pessoas tomaram ontem as ruas das principais cidades do Egito para pedir a renúncia do presidente Mohamed Morsi, no maior protesto do país desde a queda da ditadura, em 2011. Pelo menos 5 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas. Houve atos em 17 das 27 províncias e três escritórios da Irmandade Muçulmana foram atacados. O presidente rejeitou deixar o cargo e propôs um diálogo com a oposição.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2013 | 02h13

No Cairo, os principais focos de protestos eram a praça Tahrir, epicentro das manifestações que levaram à queda do ditador Hosni Mubarak, há dois anos e meio, que recebeu mais de 500 mil pessoas ontem, e o Palácio Presidencial de Ittihadiya. As palavras de ordem dos manifestantes eram as mesmas da revolta de 2011: "O povo quer a queda do regime" e "Fora!".

Aos gritos, alguns manifestantes comparavam Morsi a Mubarak e o acusavam de mentir em nome da religião. Ao menos 46 pessoas foram presas por porte ilegal de armas.

Em Alexandria, a segunda maior cidade do país, mais de 100 mil pessoas foram às ruas.

Os protestos de ontem foram os maiores desde 2011. Enquanto as manifestações foram pacíficas nas principais cidades, confrontos violentos foram registrados em Assiut e Beni Suef, no delta do Nilo, onde ocorreram as mortes. Três escritórios da Irmandade foram incendiados por manifestantes na região, segundo o partido.

Primeiro presidente eleito democraticamente na história do Egito, Morsi é acusado pela oposição secular de tentar impor uma agenda religiosa no país, com base na sharia, a lei islâmica, além de ter se tornado cada vez mais autoritário e de não ter colocado a agonizante economia egípcia nos eixos.

O desemprego aumentou e chegou a 13,2%. O turismo, principal fonte de renda do país, ainda não se recuperou e o número de turistas estrangeiros continua 40% abaixo do que havia antes da queda do ditador Hosni Mubarak, em 2011.

Confronto. A violência no país aumentou no fim de semana, com nove os mortos desde sexta-feira. Entre eles, um estudante americano.

"O país está andando para trás. Morsi está nos envergonhando e fazendo as pessoas odiar o Islã", disse a desempregada Donia Rashad, de 24 anos. Para o gerente de restaurante Suliman Mohammed, o principal motivo dos protestos é o descumprimento das metas da revolução que derrubou Mubarak. "Hoje (ontem) é o último dia da Irmandade Muçulmana no poder", afirmou.

Cerca de 25 mil partidários de Morsi, segundo fonte do Exército, se reuniram na Mesquita Rabia al-Adawiya, a poucos quarteirões do palácio. Alguns usavam armaduras caseiras - segundo eles, uma precaução contra eventuais atos de violência da oposição. Muitos cantavam "Deus é o maior", enquanto seguravam cópias do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

"Queremos dizer ao presidente que não se deixe afetar pelos protestos e não desista de seus direitos", disse Ahmed Ramadan. "Estamos aqui para apoiá-lo e protegê-lo."

Diálogo. O presidente garante que não vai renunciar. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Morsi disse ser vítima de um ataque antidemocrático contra sua legitimidade eleitoral. O presidente, no entanto, prometeu rever a nova Constituição do país, de inspiração islâmica, dizendo que as cláusulas que deram mais poder às autoridades religiosas e alimentaram o ressentimento dos seculares não foram escolha sua.

"Não há espaço para nenhuma negociação que contrarie a legitimidade constitucional", afirmou. "Se um presidente eleito for deposto, os oponentes do novo presidente também tentarão tirá-lo do poder, uma semana, ou um mês, depois da posse."

O porta-voz da presidência, Ihab Fahmi, afirmou que Morsi considera o diálogo a única via para conseguir um acordo nacional capaz de superar todas as diferenças. "Não há nenhuma medida a ser tomada à parte do diálogo", disse. "Não há alternativas para chegar a uma reconciliação nacional."

Fahmi também considerou que o respeito às diferentes opiniões é um traço da democracia e pediu para os egípcios manterem a calma, participarem pacificamente das manifestações e se unirem "contra a discórdia".

O porta-voz da Presidência negou que haja uma hipotética transferência de poder às forças armadas. "O único papel do Exército egípcio é proteger as fronteiras do país e suas instituições vitais", acrescentou o porta-voz. / AP, REUTERS, AFP e EFE

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