Milhões passarão fome, alertam ONGs expulsas do Sudão

ONU pede que Cartum reconsidere medida, uma represália à ordem de prisão contra presidente

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2009 | 00h00

As organizações não-governamentais que foram expulsas do Sudão alertam que milhões de pessoas podem passar fome sem a ajuda internacional.Ontem, o governo sudanês disse que estava cassando as licenças de mais de dez entidade por causa de indícios de que elas tenham passado informações sobre o país para os serviços secretos dos EUA, Europa e para o Tribunal Penal Internacional.Na quarta-feira, o tribunal, com sede em Haia, emitiu uma ordem internacional de prisão contra o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, acusado de crimes contra a humanidade e crimes de guerra por causa do conflito na região de Darfur, que deixou 300 mil mortos e 2,7 milhões de refugiados desde 2003, segundo a ONU.A expulsão das ONGs terá um impacto direto sobre os projetos humanitários da ONU e é vista como uma retaliação indireta do Sudão contra a organização. Várias entidades, entre elas a Oxfam e a Care, pediram ontem que o Sudão reveja sua posição. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também pediu a Cartum que continue a cooperar com as organizações.Segundo a ONU, 4,7 milhões de pessoas no Sudão dependem de ajuda internacional para se alimentar. Metade do trabalho de distribuição dos alimentos e remédios da ONU era feita por meio das ONGs expulsas.O vice-ministro de Justiça do Sudão, Abdoldaem Mohameain Ali Zomrawi, disse que a expulsão das ONGs não resultará "necessariamente em uma falta de alimentos". Cartum afirma que está investigando "dezenas" de ONGs por passar informações para o tribunal. Nos escritórios de entidades como Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Ação contra a Fome, carros foram apreendidos, assim como computadores e arquivos. Os funcionários dessas entidades receberam 24 horas para deixar a região de Darfur, no oeste do país e voltar a Cartum, de onde partirão no fim de semana.Para o governo sudanês, a MSF é uma das entidades que divulgou "provas falsas" sobre o Sudão às autoridades estrangeiras. A entidade rejeitou a acusação. "É um absurdo que estejamos sendo acusados disso", afirmou o diretor de Operações da de MSF, Arjan Hehenkamp.MANDADO DE PRISÃOO vice-ministro da Justiça sudanês, Abdoldaem Mohameain Ali Zomrawi, advertiu ontem que qualquer tentativa da ONU de fazer cumprir o mandado de prisão contra Bashir causará um "banho de sangue" no Sudão e a provável desintegração do país. "A decisão manda um recado totalmente errado aos rebeldes para que não se sentem à mesa de negociações. Assim, nunca teremos paz. Obviamente, não atenderemos ao pedido de entregar o presidente Bashir", afirmou em uma entrevista coletiva em Genebra. Segundo ele, o tribunal não tem poderes no Sudão e o governo de Cartum está fazendo o possível para encontrar os responsáveis pelos crimes dos últimos anos. "Portanto, não precisamos de uma corte internacional", disse Zomrawi.Ontem, em uma declaração inesperada, o próprio presidente da Assembleia-Geral da ONU, Miguel d?Escoto Brockmann, criticou o TPI e insinuou que o ex-presidente americano George W. Bush também deveria ser indiciado. Um dos motivos para a criação do TPI foi o de garantir que indivíduos responsáveis por crimes contra a humanidade fossem julgados, se a Justiça de seus países não os julgasse. Essa seria a forma de evitar que ditaduras possam ficar impunes diante de crimes.

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