Milícia faz ''justiça'' em nome de Chávez

Bando paramilitar La Piedrita ataca TV, instituições e residência de opositores

Maye Primera, El País, Caracas, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Nem a polícia nem a Guarda Nacional estão autorizadas a entrar nos domínios do Grupo de Trabalho La Piedrita, no bairro 23 de Janeiro, em Caracas, um dos mais populosos da capital venezuelana, que está localizado a um quilômetro e meio do Palácio de Miraflores, sede do governo. Somente em dias determinados, como na semana passada, quando o presidente Hugo Chávez fez campanha na região, é que os combatentes de La Piedrita admitem no local, com certo receio, que haja armas diferentes das suas, as da Guarda de Honra presidencial. O gesto é uma cortesia a mais com a revolução bolivariana, pela qual os integrantes de La Piedrita, que cumprem funções paramilitares, se dizem dispostos a morrer e a matar. "Somos um grupo que faz trabalho social, mas também, como disse nosso comandante Chávez, estamos armados e dispostos a defender essa revolução pela via das armas", garante Valentín Santana, líder do grupo. La Piedrita conta com cerca de 50 homens, mas controla uma área de gente humilde onde vivem cerca de três mil pessoas. Esse é também seu campo de treinamento. Assim como a polícia respeita os limites de seu território, Santana respeita o espaço de outros "grupos" que existem no bairro e estão comprometidos com o governo, alguns tão armados como o seu: a Coordenação Simón Bolívar, o grupo Carapaica, o Montaraz, os Tupamaros, o Alexis Vive e o partido Unidad Popular Venezolana.REVOLUÇÃOO 23 de Janeiro é sinônimo de revolução. Seu nome comemora a queda de Marcos Pérez Jiménez - em 23 de janeiro de 1958 -, o último ditador venezuelano, que se conservou no poder durante dez anos. Santana admite com uma "dignidade revolucionária" que foram eles que lançaram em Caracas, poucos dias antes, bombas de gás lacrimogêneo contra a Nunciatura Apostólica - a embaixada do Vaticano - e contra a residência de Marcel Granier, diretor da rede RCTV. Ele reconhece também a autoria de ataques anteriores contra o canal de notícias Globovisión, o Arcebispado de Caracas e a casa de Miguel Henrique Otero, diretor do jornal El Nacional.Publicamente, o grupo declarou como "objetivos militares" todos os meios de comunicação contra os quais agiu. Santana disse que estaria disposto a chegar mais longe. "Eles estão conspirando de maneira aberta contra a revolução bolivariana e desrespeitando o nosso presidente. E sim, são objetivos militares. Se conseguirmos apanhá-los, esteja certo de que vamos fazer justiça. Se agarrarmos, por exemplo, Marcel Granier, vamos matá-lo." Teriam o mesmo destino, segundo Santana, o diretor do jornal El Nacional e o da Globovisión.Desde que fundou seu grupo, há 23 anos, Valentín Santana saiu raras vezes do bairro. "Estamos em guerra, companheira." Ele acha que as ruas e os centros comerciais da cidade são locais proibitivos. Só sai do bairro para ir ao trabalho - haja paradoxo - como supervisor de segurança da Universidade Central da Venezuela (UCV), um dos centros públicos de Caracas que mais tem se mobilizado contra o governo de Chávez. Desde os anos 70 até a revolução bolivariana, a UCV foi uma trincheira dos grupos radicais de esquerda do 23 de janeiro. Contudo, os tempos mudaram. Santana já não apoia as mesmas causas políticas desses estudantes, pelo contrário, as combate, e mantém com eles uma espécie de acordo de cavalheiros que lhe permite fazer seu trabalho. "Eu lhes digo: se vocês se meterem comigo, estouro suas cabeças. Faço meu trabalho de segurança e se eles se meterem comigo, estejam certos de que não ficarei tranquilo."VINGANÇAO governo mantém uma relação ambivalente com La Piedrita. Em certa ocasião, o presidente Chávez os chamou de "terroristas". Na semana passada, porém, enviou-lhes uma saudação por fazer parte dos grupos sociais que trabalham na campanha pela emenda constitucional. Sobre os recentes ataques com gás lacrimogêneo, o ministro do Interior e da Justiça, Tarek el-Aissami, pediu que não se estigmatize La Piedrita. Em compensação, a defensora pública e ex-deputada do PSUV Gabriela Ramírez disse que pediria ao Ministério Público que investigue os atentados e as agressões contra passeatas estudantis por acreditar que "as disputas eleitorais são vencidas com votos, não com balas." Tanto os donos de meios de comunicação como seus funcionários já denunciaram ameaças desses grupos na Procuradoria-Geral da República e há algum tempo estão amparados por medidas cautelares de proteção emitidas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. No entanto, não deixaram de continuar sendo um "objetivo militar". Além das razões políticas, Santana tem motivos pessoais pendentes para que seus objetivos não mudem. "Quando falo de matar uma pessoa, falo do inimigo. A direita nos obrigou a agir dessa maneira. Nos primeiros cinco anos, La Piedrita tinha um objetivo apenas cultural. Mas esses canalhas vieram e mataram meu filho. Isso nos obrigou a treinar, a nos preparar. Desde que tiraram o meu filho de mim, uma parte minha se converteu em um monstro." TRUCULÊNCIA Valentín SantanaLíder do grupo La Piedrita"Somos um grupo que faz trabalho social, mas também, como disse nosso comandante Chávez, estamos armados e dispostos a defender a revolução bolivariana pela via das armas, se for necessário"

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