Damon Winter/NYT-17/9/2010
Damon Winter/NYT-17/9/2010

Milícias ameaçam dividir Afeganistão

Diante da iminente retirada americana, grupos de etnias rivais preparam-se para ocupar territórios e levar país a mais um conflito civil

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

Grupos de etnia tajique e usbeque estão armando milícias paramilitares no Afeganistão para garantir território quando as tropas de coalizão lideradas pelos EUA deixarem o país. As milícias são lideradas por comandantes do norte, que temem perder o controle da região, que sofre com o aumento da violência. Facções islâmicas com base no Paquistão têm reforçado a insurgência contra as forças estrangeiras no país vizinho.

Os radicais são pashtun, etnia de 40% dos afegãos e predominante na fronteira. Em Balkh, o governador da província e um dos ex-comandantes da Aliança do Norte, o tajique Mohammed Atta Noor, armou duas milícias paramilitares para combater os insurgentes e seus aliados pashtuns. Ele teria tomado a decisão depois que o presidente Hamid Karzai negou o pedido de aumentar as forças de segurança afegãs na região.

"Ninguém quer ser o mais fraco quando as forças de coalizão deixarem o Afeganistão. Na medida em que a insurgência se consolida, os rivais também se fortalecem", disse ao Estado o analista político Haroon Mir, diretor do Centro de Pesquisa e Estudos Políticos do Afeganistão, com base em Cabul.

A insurgência tem se intensificado com a ajuda de facções pashtun como a rede Haqqani - com base no Paquistão e liderada por Jalaluddin Haqqani -, acusada de comandar o ataque contra o Hotel Intercontinental, em Cabul, há 12 dias; e o Hezbi Islami, do fundamentalista Gulbuddin Hekmatiar, que teria assumido o controle do Nuristão e estaria no comando das operações no norte.

Para a população local, o clima é de déjà vu. Quando as tropas soviéticas deixaram o país após dez anos de ocupação, em 1989, não demorou até que os grupos de resistência, divididos em etnias, mergulhassem em uma sangrenta guerra civil, criando um vácuo para a ascensão dos taleban.

Após o colapso do regime, em 2001, os radicais fugiram para santuários terroristas na fronteira com o Paquistão e os conflitos se concentraram no sul, principalmente, nas províncias de Kandahar, berço do Taleban, e a vizinha Helmand.

A geografia da guerra começou a mudar quando o presidente dos EUA, Barack Obama, autorizou a intensificação dos ataques com aviões não tripulados nas áreas tribais do sul, com aval do Paquistão. Encurralados, os taleban voltaram-se para o norte.

Estratégia. Do ponto de vista dos insurgentes, desestabilizar o norte é uma forma de dividir e, assim, enfraquecer as forças inimigas. O líder taleban, Mulá Omar, ordenou a formação de uma shura (conselho de líderes) em Peshawar, norte do Paquistão, para coordenar operações terroristas nas províncias do norte e nordeste do Afeganistão; um subconselho da shura de Quetta, que reúne os dez comandantes de mais alto escalão do grupo e delibera sobre todas as operações do grupo.

A estratégia parece estar funcionando. No mês passado, um ataque suicida matou o chefe das forças de segurança afegãs para toda a região norte, general Daud Daud, e o chefe da polícia de Takhar, Shah Jahan Nori, dentro das instalações do governo local, durante uma reunião da Otan, ironicamente, sobre segurança.

Também no norte, Kunduz tornou-se uma das mais violentas províncias afegãs e Balkh, antes tranquila, sofreu uma reviravolta em abril com o assassinato de oito funcionários da ONU, após protestos contra um pastor americano que colocou fogo no Alcorão.

"O Taleban está usando grupos criminosos que atuam na área, oferecendo a eles segurança em troca de apoio. Nós não sabemos mais quem é quem", disse ao Estado o governador da Província de Badakhshan, Adib Waliullak Shah. A violência no norte se espalha na mesma medida dos campos de papoula. Em 2010, o cultivo de ópio no Badakhshan aumentou em 97%. Na época da colheita, junho e julho, os números tendem a subir.

Shah admite ter perdido, pelo menos parcialmente, três distritos para os radicais islâmicos. Em junho, os milicianos assumiram o controle de Kishim durante uma noite, apenas para mostrar que eram capazes. Em Darayem, líderes tribais iniciaram conversas com milicianos taleban a pedido do governo.

Resistência. Sem apoio nas áreas de etnia tajique e usbeque, os insurgentes também lançaram uma campanha para atrair os jovens nas mesquitas do norte. "Temos acompanhando uma facção do Paquistão que tem percorrido as madrassas influenciando jovens muçulmanos a dedicar-se à fé - não ao trabalho ou à família, mas somente à oração. Eles têm um discurso moderado, mas o que realmente estão fazendo é pavimentar o caminho para o Taleban recrutar novos militantes no futuro", diz Tariq, consultor de segurança e gerenciamento de risco para os militares alemães no comando do norte do Afeganistão. "Eles sabiam que encontrariam a resistência dos tajiques do norte, então, iniciaram uma nova estratégia."

Quando os insurgentes conseguiram estabelecer bases no norte, os tajiques e usbeques começaram a se reorganizar. As milícias do general Atta Noor somam 452 homens em Chimtal e Charbolak, nos arredores da capital da província, Mazar-i-Sharif - é mais do que o número de policiais nos dois distritos. Os milicianos usam armas próprias e não recebem salários. O presidente Hamid Karzai condenou publicamente a formação de milícias.

"Karzai não duraria 24 horas se as forças estrangeiras deixassem o país amanhã", diz o afegão Saad Mohseni, dono do Grupo Moby, dono de rádios, jornais e da TV Tolo, único canal TV privado no Afeganistão. Quando isso ocorrer, veremos facções diferentes emergirem no controle de áreas e instituições. Exatamente o que vimos nos anos 1990, com a saída dos russos". Entre os fatores que podem levar a população civil a engajar-se nas milícias está a corrupção. "Esse governo perdeu a credibilidade."

PARA LEMBRAR

Guerra civil durou 4 anos

A saída das tropas soviéticas do Afeganistão em 1989, após dez anos de ocupação, levou ao colapso do regime e a um vácuo no governo central. Reunidos em Peshawar, no Paquistão, os comandantes mujaheddin decidiram por um governo de transição, com representantes de cada etnia. O tajique Burhanuddin Rabbani foi apontado presidente. O acordo, porém, desagradou Gulbuddin Hekmatiar, do Hezb-i Islami. Com o apoio do Paquistão, ele avançou para Cabul, dando início à guerra civil contra o tajique Ahmad Shah Massoud. Divididas em etnias, as outras facções aderiram à disputa. Os conflitos durariam 4 anos até a ascensão do Taleban.

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