Scott Olson/Getty Images/AFP
Scott Olson/Getty Images/AFP

Milícias de civis armados trazem ameaça de violência aos protestos nos EUA

Grupos de milicianos e simpatizantes se tornaram presença constante em dezenas de eventos, onde enfrentam os manifestantes que reivindicam justiça racial

Joshua Partlow, Isaac Stanley-Becker e Mark Guarino / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 09h02

O chamado às armas online era urgente: “Cidadãos Armados” estavam sendo convocados para proteger Kenosha. “A polícia está em menor número e nosso prefeito fracassou”, escreveu um novo grupo que se autodenomina a Guarda de Kenosha, convocando homens armados para confrontar os manifestantes que clamam por justiça racial em Wisconsin. “Peguem as armas e vamos defender nossa CIDADE!”.

Milhares de pessoas curtiram a mensagem nas redes sociais. E as armas logo apareceram. Civis carregando rifles de assalto e armas de mão foram vistos nas ruas de Kenosha durante os eventos caóticos de terça-feira à noite e na manhã seguinte, que deixaram duas pessoas mortas e outra ferida.

Entre os civis armados estava o suposto atirador – que depois a polícia identificou como Kyle Rittenhouse, 17 anos, de Antioch, Illinois – o qual câmeras de segurança flagraram correndo com um rifle de assalto perto de um posto de gasolina de Kenosha, no centro do conflito.

Grupos de milicianos e seus simpatizantes se tornaram uma presença constante nos Estados Unidos neste verão, aparecendo em dezenas de eventos e enfrentando os manifestantes que reivindicam justiça racial. Especialistas que estudam atividades de milícias vêm alertando que a proliferação de armas em mãos não treinadas nesses protestos é receita certa para um derramamento de sangue.

“Quando você tem todos esses elementos presentes – momento político tenso, muita desinformação e grupos fortemente armados – é apenas uma questão de tempo até que algo realmente perigoso aconteça”, disse Lindsay Schubiner, diretora de programa do Western States Center, que monitora milícias e outros grupos extremistas.

Na quarta-feira, a Guarda de Kenosha, que convocou as pessoas a trazerem armas para o protesto de terça-feira, negou que tivesse qualquer conexão com Rittenhouse. Kevin Mathewson, um dos líderes da Guarda de Kenosha que ajudou a organizar as atividades de terça-feira, disse em uma entrevista que nunca se encontrou nem se comunicou com Rittenhouse.

Mathewson, 36 anos, é um ex-vereador de Kenosha que agora trabalha como segurança e investigador particular. Ele disse que seu objetivo era “alertar a população de que tem outros cidadãos dispostos a proteger nossas vidas e propriedades, já que a polícia estava em menor número todas as noites”.

Mathewson, que carregava uma pistola e um fuzil AR-15, negou que a presença armada houvesse exacerbado a agitação, dizendo que tinha a intenção de proteger os estabelecimentos comerciais e as unidades residenciais acima destes.

“Até concordo com o que os manifestantes estão dizendo, mas não gosto de ver meu bairro totalmente queimado”, disse ele, acrescentando que a polícia local teve uma reação “positiva” à mobilização dos cidadãos. “Eles estavam distribuindo água para nós, nos agradecendo e nos cumprimentando calorosamente”.

O vídeo que circulou nas redes sociais pareceu confirmar seu relato sobre os policiais agradecendo aos civis armados e dando-lhes água.

As armas ficaram bem visíveis durante o protesto na noite de terça-feira. Alguns homens brancos que se moviam em formações de estilo militar carregavam rifles de assalto e vestiam equipamentos táticos. Outros usavam a insígnia dos boogaloo boys – às vezes grafada boogaloo bois – um movimento antigovernamental cujos membros costumam vestir camisas havaianas e esperam uma segunda guerra civil americana.

Algumas pessoas protestando contra os tiros disparados contra Jacob Blake, o homem negro de 29 anos que foi baleado nas costas pela polícia no domingo, também carregavam armas.

Rittenhouse, que foi preso e acusado de homicídio doloso de primeiro grau, era membro de um programa de cadetes do Corpo de Bombeiros de Antioch, de acordo com um boletim do departamento. Ele também postou fotos de si mesmo com rifles de assalto em sua página do Facebook, bem como mensagens de apoio à polícia. Em janeiro, ele postou em seu perfil do TikTok o vídeo de um comício de Donald Trump em Iowa.

Oren Segal, vice-presidente do Centro de Extremismo da Liga Anti-Difamação, disse que uma análise preliminar dos antecedentes de Rittenhouse não apontara para laços com grupos extremistas ou milícias formais. Segal disse que as postagens de Rittenhouse nas redes sociais mostram que ele defende a doutrina pró-polícia Blue Lives Matter. “Mas não há nenhuma indicação de que ele tivesse qualquer conexão com movimentos extremistas”, disse Segal.

Ainda assim, disse Segal, Rittenhouse representa uma tendência preocupante: pessoas que usam seu apoio à polícia como justificativa para aparecer armadas em protestos ou tumultos.

Esses “autodeclarados vigilantes” geralmente se organizam online, em torno da crença vaga e compartilhada de que são necessários para ajudar a polícia, disse Segal, “mas não existe necessariamente uma ideologia coerente que os vincule”.

Enquanto alguns grupos de milícia têm décadas de história, outros vêm se formando recentemente – ou angariando ondas de novos membros – em resposta às restrições do governo durante a pandemia do coronavírus e aos protestos contra a violência policial em todo o país.

Suas aparições seguiram um padrão que agora já soa familiar. Muitas vezes, espalhava-se um chamado às armas nas redes sociais, às vezes em resposta a rumores ou boatos de internet segundo os quais manifestantes antifascistas planejavam saquear ou causar danos em suas comunidades. Então, homens brancos, predominantemente, reuniam-se em dezenas de protestos do Black Lives Matter, postando-se à espreita nas margens das manifestações, vestidos de roupas no estilo militar e com revólveres e rifles de assalto em mãos.

Nos últimos meses, grupos milicianos invadiram uma casa legislativa em Michigan e correram para o campo de batalha em Gettysburg, Pensilvânia, por causa de uma notícia falsa que se espalhara pela internet. Os membros desses grupos dizem que sua presença tem como objetivo manter a ordem e ajudar a polícia local. Os manifestantes os veem como uma presença perigosa e intimidadora que traz uma mensagem racista. Alguns desses civis armados usam insígnias dos supremacistas brancos e, em alguns casos, defendem abertamente posicionamentos neonazistas contra negros e imigrantes.

Já ocorreram tiroteios durante outros confrontos entre manifestantes e grupos armados. Uma pessoa foi baleada e gravemente ferida em Albuquerque, em junho, durante o confronto entre manifestantes e um grupo chamado Guarda Civil do Novo México. O promotor do distrito local entrou com uma ação após o tiroteio, tentando impedir o grupo de se reunir e assumir funções que são das forças de segurança.

Andy Berg, membro do Conselho de Supervisores do Condado de Kenosha, disse que, embora não apoie saques ou danos a propriedades, a Guarda de Kenosha está “conturbando a situação”.

“Se eles quisessem ser responsáveis pela aplicação da lei, deveriam ter feito a inscrição e passado pelo processo de contratação”, disse ele.

Na noite de terça-feira, um homem armado que parecia estar com a Guarda de Kenosha se identificou como Joe, 29 anos, veterano do Corpo de Fuzileiros Navais. Ele disse que no grupo havia 3 mil pessoas “armadas e prontas” e que a polícia não estava defendendo a cidade.

“Não estão fazendo nada”, disse ele. “Nós somos os únicos”.

O xerife do condado de Kenosha, David Beth, disse na quarta-feira que parecia que o atirador era membro de um grupo de milícia, mas não apresentou nenhuma prova. Beth disse em entrevista coletiva que um membro da comunidade pedira para ele convocar uma milícia de cidadãos para ajudar a manter a ordem.

“Eu falei, não, de jeito nenhum”, disse Beth. A violência da noite “provavelmente era a razão perfeita para não fazer esse tipo de convocação (...). Parte do problema desse grupo é que eles geram confronto”.

O Facebook removeu na manhã de quarta-feira a página da Guarda Kenosha, bem como o perfil pessoal de Mathewson, o ex-vereador, por violar as políticas da empresa sobre organizações de milícias – parte de regras mais amplas sobre “indivíduos e organizações perigosas”. Mathewson, que era administrador da página da Guarda, não terá seu perfil de volta, segundo um funcionário do Facebook que discutiu esses detalhes sob condição de anonimato, por causa da ameaça de violência que os cerca.

O Facebook também designou o tiroteio da noite de terça-feira como um “evento de violação”, o que significa que estão sendo excluídos o conteúdo e as contas associadas a este – inclusive a do atirador suspeito. O Facebook está em contato com as autoridades locais e federais para discutir os eventos em Kenosha, acrescentou o funcionário.

Em Wisconsin, os adultos podem portar armas abertamente e não precisam de permissão ou licença para revólveres, rifles e outras armas, de acordo com a National Rifle Association. Na noite de segunda-feira, um grupo de jovens brancos com rifles de assalto se reuniu no Civic Park em Kenosha. Um dos líderes do grupo se apresentou apenas como Luke e se descreveu como “antifa libertário”. Ele disse que a intenção era “proteger” os manifestantes.

“Somos vistos como uma coisa da alt-right”, disse Luke, que não parecia ser afiliado à Guarda de Kenosha. “Somos muito parecidos com os antifas, mas não somos centralizados. Somos antifas libertários”.

Ao lado dele, um homem armado usava um distintivo boogaloo e deu seu perfil de Instagram, “johnnytheredneck” [algo como “johnny, o caipira”], no qual se descreve da seguinte maneira: “Agora só posto coisas de ódio a todo e qualquer governo”.

Por volta das 21h00 de terça-feira, um repórter do Washington Post testemunhou esses homens marchando em formação para a área de protesto perto da Civic Square. “Não estamos tentando machucar ninguém”, disse Luke na terça à noite. “Se os policiais não vão impedi-los de jogar bombas em civis inocentes, alguém precisa fazer isso”.

Em um post de Instagram na quarta-feira, Luke negou que o atirador fizesse parte de seu grupo e disse que ele “não parecia estar com nenhum outro grupo”.

“Teve uma briga no posto de gasolina, meu grupo não estava lá”, escreveu ele. “Ouvimos tiros quando estávamos no nosso local de preparação, a cerca de um quilômetro e meio a noroeste do incidente. Cinco minutos depois de ouvirmos os tiros, fomos inundados com ligações e mensagens de texto sobre o tiroteio. Não sabemos quem é esse cara e eu não tenho informações sobre as circunstâncias do tiroteio”.

Luke acrescentou em outro post que era hora de seus bois se “retirarem completamente de Kenosha”.

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