REUTERS/Jorge Cabrera
REUTERS/Jorge Cabrera

Milícias na Nicarágua intimidam a imprensa

Balanço de mortes no conflito político que completa hoje 100 dias varia de 295 a 448

O Estado de S.Paulo

26 Julho 2018 | 21h25

MANÁGUA - Um grupo de homens encapuzados intimidou os trabalhadores da empresa ND Medios, um dos grupos de comunicação mais importantes da Nicarágua, informou ontem o jornal El Nuevo Diario, em meio a uma crise que deixou entre 295 e 448 mortos, segundo balanço de organizações distintas.

“Elementos encapuzados e armados se instalaram na noite de quarta-feira diante das instalações da empresa de comunicação ND Medios, que publica os jornais El Nuevo Diario, Metro e Q’hubo, para projetar na fachada do edifício um vídeo com propaganda contra os protestos, que qualificaram de terrorismo”, denunciou o grupo de mídia.

De acordo com o jornal, os paramilitares, que chegaram em caminhonetes, estacionaram no meio da rua em frente do prédio, no norte de Manágua, e projetaram um vídeo no qual se lia: “justiça para as vítimas do terrorismo golpista”. Testemunhas disseram que eles apontavam armas para o edifício. “Os funcionários que ainda estavam dentro das instalações tiveram de deixar o local por uma saída de emergência por sua segurança”, informou El Nuevo Diario.

Minutos depois do incidente, o governo publicou em suas redes sociais que o grupo dera composto por “cidadãos que buscam justiça”. “A direção desta empresa de jornalismo considera este um ato de intimidação, que atenta contra a liberdade de imprensa, por isso fará uma denúncia à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), da qual El Nuevo Diario é sócio”, ressaltou o grupo de mídia. 

Mascarados já tinham realizado um ato similar em uma sucursal do Banco da Produção (Banpro), na noite de terça-feira, o que também foi informado minutos depois pela mídia do governo nicaraguense. Desde o início dos protestos contra o governo do presidente Daniel Ortega, em 18 de abril, vários meios de comunicação foram atacados por desconhecidos, o que custou a vida do jornalista Ángel Gahona. Ela levou um tiro enquanto transmitia ao vivo uma manobra policial na cidade de Bluefields. 

Execuções

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos têm responsabilizado o governo Ortega “pelos assassinatos, execuções extrajudiciais, maus-tratos, possíveis atos de tortura e detenções arbitrárias cometidos contra a população majoritariamente jovem do país”. O governo nega todas as acusações.

De acordo com a ONG Associação Nicaraguense Pró Direitos Humanos (APNDH), 448 pessoas morreram desde abril, 2.800 ficaram feridas e 595 estão desaparecidas. O secretário-executivo da ONG, Álvaro Leiva, disse ontem que esses números são preliminares, pois o grupo teve dificuldades para confirmar casos registrados em áreas de difícil acesso. Já a CIDH diz que 295 pessoas morreram nos 99 dias de crise, a mais sangrenta desde os anos 80, quando Ortega também era presidente. / EFE

 

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