Milícias pagas por americanos viram risco extra para segurança

Grupos locais armados pelo governo afegão para combater o Taleban passaram a cobrar propina da população

Ray Rivera, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Milícias independentes armadas pelo governo afegão e financiadas pelos EUA tornaram-se mais um problema para a estabilização do país. Autoridades de Cabul tentam dissolver centenas de grupos na conturbada província de Kunduz, no norte do Afeganistão. Mais de 4 mil dos seus membros receberam ordens para depor as armas em 20 dias, sob pena de uma repressão militar.

Em muitos casos, as milícias foram formadas a reboque de um programa oficialmente sancionado e financiado pelos Estados Unidos para o recrutamento de combatentes locais que se integrariam a patrulhas policiais e combateriam o Taleban.

Em Kunduz, onde o governo armou e equipou cerca de 1,5 mil milicianos, milhares de outros uniram-se aos grupos independentes que proliferam no país, os arbakai. Alguns são compostos de dois a dez homens, enquanto outros têm centenas de integrantes. As autoridades afirmam que não passam de gangues que causam danos, frequentemente entrando em choque entre si e cobrando impostos ilegais da população.

O governo tenta agora coibir os arkabai de Khan Abad, no sudeste de Kunduz, onde, segundo as autoridades, a concentração de milícias independentes é a mais elevada. A decisão veio depois de uma reunião da qual participaram anciãos tribais, representantes do Exército e da polícia e alguns líderes das milícias.

Oficiais do Exército informam que começarão a ir de casa em casa para retirar as armas, caso os membros das milícias não obedeçam ao prazo.

"A existência destes grupos armados ilegalmente criou graves problemas para o processo de paz", disse Mohammad Zaman Waziri, comandante da Primeira Brigada do 209º Batalhão do Exército Nacional Afegão. "Estas pessoas tiram dinheiro dos habitantes cobrando um suposto imposto religioso, provocam perturbações da ordem e já entraram em conflito entre si."

Líderes da milícia afirmam que, se devolverem suas armas - entre elas até foguetes propulsores de granadas, metralhadoras pesadas e morteiros - ficarão indefesos diante dos taleban que afirmam combater. "Há ainda muitos taleban em nossas áreas", disse Hussain, um comandante arkabai. "Se tirarem nossas armas, os taleban nos matarão".

Muitos dos milicianos oficialmente reconhecidos em Kunduz deverão ser absorvidos na polícia local, conforme prevê o programa financiado pelos Estados Unidos. Mas a província tem apenas 1.200 vagas na polícia, e o processo de avaliação e de treinamento dos candidatos tem sido lento. Até o momento, só 105 milicianos foram promovidos a policiais. O distrito de Khan Abad tem 550 vagas.

Os problemas em Kunduz refletem a crescente preocupação com o programa da polícia local. Lançado há um ano, treinou cerca de 6,2 mil policiais em 41 distritos até meados de junho, enquanto o seu objetivo é recrutar 30 mil homens, em 100 distritos até o fim do ano. Mas os trabalhadores da ajuda e os funcionários da ONU advertem que o programa corre o risco de admitir até tiranos locais que não têm respeito pelos direitos humanos e pelo procedimento legal. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.