Militante do Talebã luta por US$ 150 por mês

Apesar de os Estados Unidos terem declarado a vitória sobre o regime Talebã no Afeganistão em 2001, no ano passado os combates entre tropas aliadas e insurgentes provocaram mais vítimas do que durante a guerra. E, diferentemente do que ocorria naquela época, hoje muitos militantes do Talebã aderiram à jihad ("guerra santa") por dinheiro. A reportagem da BBC encontrou um deles em Zabul, no sudeste do Afeganistão, e ele concordou em contar sua história caso sua identidade não fosse revelada. Ele diz ter 28 anos, embora como a maioria dos afegãos que tiveram uma vida dura, pareça ser mais velho. É baixo e muito bem humorado. Ri ao contar como foi enfrentar o mais poderoso Exército do mundo. "Estou lutando com um fuzil Kalashnikov e uma bazuca", disse. "Não estou tentando tomar o país. Só tento ganhar meu salário." "Eles me deram um salário, roupas novas, sapatos, uma motocicleta e o Kalashnikov. Eu tinha que ir lutar onde me mandassem durante sete ou oito dias por mês." Ex-refugiado Este é um homem que, quando o Talebã estava no poder, fugiu para o Paquistão para evitar o recrutamento militar. Lá, trabalhou em perigosas minas de carvão pelo equivalente a US$ 2 por dia. Depois da queda do regime, ele voltou à sua terra para ganhar a vida cultivando o terreno da família. Ganhava pouco. Quando lhe ofereceram dinheiro para lutar - US$ 300 para entrar na milícia e US$ 150 por mês - agarrou a oportunidade. Com o novo salário, reconstruiu a casa da família, pagou o casamento do irmão e alimentou seus filhos. Ele nunca disse para ninguém que lutava por dinheiro, especialmente para os moradores locais, que apóiam os insurgentes voluntária ou involuntariamente. "Eu fiquei conhecido por receber alimentos das pessoas", disse ele. "Às vezes eu dizia: ´Traga-me alguns ovos!´. Ninguém dizia nada, eles tinham medo. Se não nos davam comida, nós batíamos neles com nossas armas", contou. Para ele, o que faz é "o trabalho de Deus, Todo Poderoso". Abusos Zabul é uma das províncias mais pobres do país. Não há organizações de ajuda internacional trabalhando aqui. O chefe de uma ONG afegã acredita que de 60% a 70% dos combatentes têm motivação econômica, e que apenas 10% fazem isso por convicção, por desejar trazer de volta o Emirado Islâmico do Talebã. O restante, segundo ele, são homens que começaram a lutar depois de sofrer abusos nas mãos das forças americanas ou, mais freqüentemente, da polícia ou funcionários provinciais afegãos. Isso também foi visto no sul do país, onde comandantes que tomaram o poder depois da queda do regime Talebã, em 2001, vêm abusando da população civil. Tortura Mohammed Ibrahim Sahdat, um advogado da Comissão de Direitos Humanos para o Afeganistão, disse que o maior problema em sua província, Helmand, são as falsas prisões. "As pessoas são presas principalmente por dinheiro, mas nem sempre", afirmou. Ele cita o caso de um homem de 30 anos que morava perto do local onde ocorreu uma explosão e foi acusado de ser o responsável por ela. "Se alguma coisa acontece, a polícia tem que prender alguém", disse Sahdat. "Esse homem não tinha terras, era pobre, sem influência e é por isso que ele foi preso. O interessante é que a pessoa que o deteve agora é um parlamentar em Cabul." Sahdat disse que o homem ficou pendurado pelos pés por dez horas, foi espancado e recebeu choques elétricos. Agora, libertado, está se submetendo a tratamento médico no Paquistão. Novos políticos A União Européia também tem depoimentos documentados de abusos, prisões falsas e tortura em Helmand. Há quem diga que a má administração está ajudando os insurgentes. "O povo quer um governo que possa garantir a segurança e que respeite suas crenças, por isso muitos querem que o Talebã volte", diz um homem mais velho, que já assistiu a muitas prisões injustas de jovens de seu povoado. No ano passado, um político conhecido por não ser corrupto, Haji Arman, assumiu o governo de Zabul. Desde então, ele já demitiu centenas de pessoas. "Onde havia milícias, eu coloquei bons chefes de polícia e governadores provinciais", conta. Pela primeira vez em quatro anos, a ONU está otimista em relação à província.

Agencia Estado,

01 Março 2006 | 19h49

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