Militantes aderem à greve de fome em Guantánamo

Ativistas americanos e detentos de penitenciárias do país protestam contra alimentação forçada de ao menos 40 presos da base dos EUA

PATRICK BROCK , ESPECIAL PARA O ESTADO , NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h06

A voz de Elliott Adams, de 66 anos, fraqueja ao relatar os percalços de seu protesto contra a alimentação forçada de presos na base de Guantánamo: memória fraca, perda muscular, dificuldade em fazer coisas simples como sentar, medo de ser acometido por infecções. Mas o timbre fica firme ao lançar seus argumentos. "Como americanos, se permitimos que isso ocorra e insistirmos em nos considerarmos defensores da liberdade, o que nos tornamos?", questiona.

Adams faz parte de um movimento de solidariedade com os presos da guerra ao terror na base militar da Baía de Guantánamo, em Cuba. Cerca de 40 deles estão em greve de fome desde março, em protesto contra a resistência dos EUA em libertar 86 prisioneiros que já têm permissão para deixar a base.

A greve de fome estendeu-se a outros centros de detenção nos EUA: na Califórnia, 12 mil presos se recusam a comer há uma semana, em protesto contra as más condições na penitenciária.

Clive Smith, advogado britânico de direitos humanos e chefe da ONG Reprieve, disse na última semana que entrou em greve de fome em solidariedade a Shaker Aamer, o último britânico ainda detido na base. Outros sete americanos declararam ter aderido à causa.

Questionado por que os 86 prisioneiros ainda não foram libertados, o advogado David H. Remes, conhecido por defender de graça os detentos em Guantánamo, sugeriu: "Pergunte a Obama".

Do Iêmen, onde se reunia com familiares de prisioneiros, ele afirmou que o presidente Barack Obama "tenta culpar o Congresso, mas tem toda a autoridade para libertá-los".

Remes fez a defesa de Adnan Latif, o prisioneiro com problemas psicológicos que morreu em Guantánamo em 10 de setembro de 2012. Os militares dizem que ele se matou. Uma investigação interna sobre o caso ainda não foi concluída.

Tubos. A forma de alimentar à força os presos de Guantánamo foi condenada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU e pela Associação Americana de Medicina.

Eles recebem uma alimentação à base de líquidos nutritivos por um tubo inserido pelas vias nasais até a garganta. Em cartas contrabandeadas por advogados, os presos descrevem a sensação: "É como engolir lâminas de barbear".

Um vídeo produzido pela Reprieve e divulgado na semana passada no site do jornal The Guardian mostra o ator americano Mos Def (Guia do Mochileiro dos Galáxias) sendo submetido ao mesmo procedimento.

Os militares americanos mantiveram o procedimento durante o mês sagrado do Ramadã, que teve início na segunda-feira e durante o qual os muçulmanos fazem jejum entre o nascer e o pôr do sol.

Numa concessão à fé, os presos estão sendo alimentados somente à noite.

Paraquedista veterano da Guerra do Vietnã, Elliott Adams já presidiu o grupo Veterans for Peace e prestou depoimento no Congresso americano, em 2008, contra a tortura na guerra ao terror. Ele tem consumido apenas 300 calorias por dia e já perdeu 14 quilos desde o início do protesto, em 17 de maio. Com 1,80 metro de altura, ele pesa agora 62 kg.

Recentemente, o ativista fez exames de sangue para avaliar o risco de ter um ataque cardíaco, principal causa de morte de pessoas em greve de fome. Um médico em Oregon, especializado nas consequências físicas do jejum, tem monitorado sua saúde. Morador do vilarejo de Sharon Springs, a cerca de uma hora de carro de Albany, capital do Estado de Nova York, Adams disse que está tentando ingerir poucos, mas saudáveis alimentos e sais minerais.

"Hoje, comi um ovo e um pouco de brócolis", disse Adams ao Estado.

Ele passa o tempo tentando cuidar do jardim de sua chácara, em Sharon Springs, mas admite não conseguir fazer muita coisa. "Nossos impostos estão sendo usados para fazer algo contra todos os preceitos da democracia americana. Como podemos nos considerar cristãos quando essa tortura desafia qualquer moral, religiosa ou não?", questiona.

O ativista relata a experiência no blog closegitmo.net, mas o movimento liderado por ele não tem recebido muita atenção da grande imprensa americana. "Os americanos não estão prestando atenção porque estão dispostos a acreditar nas mentiras do governo para justificar a tortura", disse.

"Quando ele (Adams) diz que vai fazer algo, faz mesmo. Ele está adotando uma posição muito corajosa ao arriscar a própria vida para tentar conscientizar as pessoas sobre a questão", afirmou Gerry Condon, diretor do conselho do Veterans for Peace, que conhece Adams há anos e diz que ele é respeitado por sua integridade.

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