EFE/David Fernández
EFE/David Fernández

Militantes rivais estendem debate argentino inédito à internet

No dia seguinte ao duelo entre Scioli e Macri, melhores momentos de cada um foram usados nas redes sociais

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2015 | 22h12

O dia seguinte ao primeiro debate entre dois candidatos à presidência da Argentina foi de análise do desempenho do governista Daniel Scioli e do conservador Mauricio Macri e de projeção dos últimos quatro dias de campanha. Embora os dois não tenham se declarado vencedores, seu militantes se encarregaram de fazê-lo e usaram as redes sociais para “viralizar” os melhores momentos de cada um.

Em vantagem nas pesquisas, que o colocam entre 3 e 11 pontos à frente do rival, Macri pareceu mais adaptado ao formato, por ter participado do debate do primeiro turno. Scioli, que então aparecia como favorito segundo as pesquisas, não foi. Alegou que era preciso uma lei regulatória e suas ideias já eram conhecidas em oito anos de governo na Província de Buenos Aires.

No encontro de domingo, ele não conseguiu sintetizar perguntas e respostas no tempo determinado. Seu momento de maior brilho foi ao responder sobre a expansão do narcotráfico em sua província. “Se você não consegue resolver o problema dos flanelinhas em Buenos Aires, acha que o povo vai acreditar que pode combater o narcotráfico?”

Um grupo de jovens peronistas fez um vídeo caseiro de 25 segundos em que celebra como um gol este trecho do encontro. Quando Scioli termina a frase, exibida em uma gravação, todos correm para lados diferentes gritando e fazendo sinais de que Scioli “exterminou” o rival. Um deles salta com um quadro de Evita, ícone peronista potencializado por Cristina Kirchner nos últimos 12 anos. O vídeo divulgado no Twitter teve mais de 200 mil visualizações ontem. 

Macri obteve efeito semelhante ao dizer que Scioli tinha se transformado em participante de um programa ultrakirchnerista e brincar com a fama de não encarar objetivamente perguntas da imprensa. “Você não me respondeu. Bom, não responde a nenhum jornalista na Argentina, então não vou me sentir mal por isso”, disse Macri depois de questionar o adversário sobre o dado kirchnerista de que no país há 5% de pobres. 

O grande triunfo do candidato opositor nas redes sociais não foi uma frase, mas o beijo que deu no fim do encontro em sua mulher, Juliana Awada. A expressão de Scioli diante da cena tornou-se o meme do dia. As montagens recortam o governista constrangido e o colam diante de beijos históricos do cinema.

Os gestos e as provocações entre os adversários tornaram-se a arma virtual de militantes porque a troca de propostas concretas quase não ocorreu.

“Macri levou alguma vantagem porque esteve mais seguro e Scioli transpareceu nervosismo. O candidato opositor deixou o confronto com um ar de ganhador. Dito isso sobre a forma, não houve grande troca de ideias e conceitos”, disse ao Estado o consultor político Federico González.

Ambos fugiram das respostas e usaram alguns dados falsos para fundamentar suas perguntas. O site chequeado.com, que se dedica a verificar informações, apontou dezenas de imprecisões. Entre elas, a premissa de Macri de que os aposentados perderam poder de compra com a inflação no período kirchnerista (a pensão mínima aumentou mais que os preços). Sobre o mesmo tema, Scioli exagerou ao dizer que 3 milhões de aposentados foram incorporados ao sistema de previdência desde 2003 (foram 2,3 milhões).

“Dependendo da checagem da semana, somos acusados de ser pagos pelo kirchnerismo ou pela oposição. Estamos tranquilos porque nos acusam de ambos os lados e nosso financiamento é transparente. Não aceitamos publicidade estatal”, explica Laura Zommer, diretora do site.

A campanha termina na quinta-feira. Se usarem a mesma estratégia do debate, Scioli insistirá em vincular Macri a um ajuste econômico a partir da desvalorização do peso. Macri tende a associar o rival aos 12 anos de governo kirchnerista.

“Se pudesse dar um conselho, diria a Scioli para ser menos agressivo, pois isso está associado ao kirchnerismo. Ele teve sucesso como um candidato cordial. Macri pode seguir na mesma linha, mas falar mais de conteúdo. Essa orientação de que não interessa fazer propostas não me convence”, diz González, referindo-se à tática opositora de não detalhar seus planos e apostar em atrair o voto antikirchnerista.

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