Militar denunciou Ledezma, diz defesa

'Sob tortura'. Advogado do prefeito de Caracas alega que detenção do opositor, indiciado por conspirar contra o presidente venezuelano, ocorreu após confissão do tenente-coronel José Arocha e foi obtida à força pelo Serviço Bolivariano de Inteligência

CARACAS, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 02h02

O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, foi preso porque um militar o denunciou "sob tortura", disse o advogado do político opositor, Omar Estacio, em entrevista publicada ontem no jornal venezuelano La Verdad. De acordo com a confissão assinada pelo tenente-coronel José Arocha, Ledezma fazia parte de uma conspiração para derrubar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

Arocha foi preso em maio por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin). "Vamos sustentar que essa confissão foi obtida por meio de tortura", disse Estacio na entrevista ao diário de Maracaibo. "A ata de incriminação (de Ledezma) foi assinada por Arocha em novembro do ano passado."

O prefeito opositor foi detido na quinta-feira e, no dia seguinte, formalmente acusado de conspiração e formação de quadrilha.

A mulher do prefeito, Mitzy Ledezma, afirmou ontem em entrevista à agência Reuters que o presidente venezuelano está em pânico com a baixa popularidade e revelou sua face autoritária. "Maduro está aterrorizado, em pânico", disse ela. "Ele sabe que todo dia ganha mais oponentes."

Ledezma, que aguarda julgamento na prisão militar de Ramo Verde, pode ser condenado a até 28 anos de reclusão, "pena máxima pelos delitos que está sendo acusado".

O advogado explica que a defesa alegará que Ledezma tem imunidade porque ele foi eleito democraticamente. Essa tática, no entanto, será usada no "momento adequado". "Seguimos de acordo com uma estratégia processual. Vamos fazer isso, mas não nesse momento. Por enquanto, vamos buscar provas de sua inocência."

Além de ser denunciado por Arocha, Ledezma foi citado pelo ativista estudantil Lorent Gómez Saleh, preso em setembro, após ser expulso da Colômbia. Estacio disse que o estudante apenas reconheceu "o peso político de Ledezma" em um vídeo gravado pelo Sebin.

O secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, disse ao jornal El Tiempo que a atual situação na Venezuela pode comprometer a democracia no país, mas ressaltou que o governo Maduro é legítimo. "Para mim é claro que o pano de fundo dessa crise é a situação econômica, que pode afetar e até comprometer a estabilidade democrática."

Samper disse que a Unasul não se omitiu diante da prisão de Ledezma e do líder do partido Voluntad Popular, Leopoldo López, mas é preciso ter "prudência e diplomacia" porque o papel do organismo não é "iniciar ou apagar incêndios".

Pesquisa. Sete de cada 10 venezuelanos avaliam negativamente a situação econômica e política do país e aponta o presidente Nicolás Maduro como principal responsável pela crise institucional, segundo pesquisas dos institutos Hinterlaces e Datanalisis divulgadas ontem.

Oscar Schémel, presidente da Hinterlaces, disse em entrevista à emissora Televen, de Caracas, que "sete de cada dez venezuelanos acreditam que o país está em um caminho ruim e sete de cada dez têm uma avaliação regular ou ruim da gestão presidencial".

Além disso, oito de cada dez venezuelanos "se preocupam mais com a economia do que com a política". Pela primeira vez, os venezuelanos apontam os problemas econômicos como a principal causa de suas preocupações, especialmente o desabastecimento de alimentos e outros produtos, de acordo com a pesquisa feita pela Hinterlaces. / AP, AFP, EFE e REUTERS

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